Segundo ciclo do folfire

     Na última quarta-feira fiz o segundo ciclo do folfire, apesar de minha imunidade estar baixa. A Dra. Daniele entendeu valer a pena fazer mais um ciclo de quimioterapia antes de minha próxima viagem em outubro.
     Estou animada com a viagem, apesar de ainda estar me sentindo bastante fraca e cansada. Os efeitos colaterais desse novo protocolo são cruéis, mas meu novo gastro, o Dr. Fernando Castro, me deu várias orientações que fizeram cessar a diarréia e diminuíram o excesso de gazes que me deixavam louca. O Dr. Fernando é um encanto de pessoa e um médico muito atencioso. Ele prescreveu um probiótico, além de uma alimentação mais leve, em pequenas quantidades e mais frequente. Está funcionando.
     Ontem eu estava me sentindo muito fraca, passei a maior parte do dia dormindo. Hoje saí cedo para fazer um novo hemograma que confirmou que minha imunidade baixou mais ainda. Entrei em contato com a Dra. Daniele, minha oncologista, que acabou por prescrever uma dose de neulastin para resolver o problema o mais rápido possível afinal, com uma leucopenia severa, fico muito exposta a infecções. Fiz o neulastin pela manhã e sei que vou melhorar. 
     Quando estava no hospital aguardando para fazer a medicação encontrei o Dr. Fernando que acompanhava sua esposa para fazer uma medicação. Ficamos papeando na recepção enquanto esperávamos atendimento e foi um momento agradável. Todos conversavam animadamente e ninguém estava com cara de enterro. Isto é ótimo.
     Prefiro focar minha atenção na próxima viagem. Até lá quero estar zerada, inteira, para encarar alguns dias passeando e curtindo a vida. Não quero ficar pensando em doença afinal, há muito decidi que trato para poder viver e não vivo para me tratar. Sendo assim, de vez em quando tiro umas férias para curtir tudo de bom que a vida pode oferecer. É a minha pausa para viajar.

Novo protocolo: Folfiri e Herceptin

     Na quinta-feira fiz o herceptin e foi colocada a bomba de infusão para o folfiri. Essa bomba portátil libera a medicação ininterruptamente por 46 horas. Hoje pela manhã fui retirar o mecanismo.
      Senti bastante enjôo e não escapei de ter que usar o vonau flash para não vomitar. Detesto ter que usar esse tipo de medicação porque costuma prender o intestino e aí a emenda fica pior do que o soneto. Espero que agora eu fique bem, sem enjoar.
     A bomba que libera a medicação emite um ruído discreto mas, no período da noite, o ruído pode incomodar um pouco. Não foi meu caso, confesso. Consegui dormir sem problemas, apesar do ruído.
     Vou fazer esse protocolo a cada 15 dias. Tomara que faça o efeito esperado e interrompa a evolução alucinada da doença. Vamos ver.
    

Resultado do PET: avanço da doença com preservação dos órgãos vitais

     O tratamento que iniciei depois do PET que fiz em junho não fez o menor efeito e a doença avançou um bocado. Na realidade, depois de ter esgotado todos os protocolos para casos como o meu, qualquer coisa daqui para frente é apenas paliativo, uma tentativa de bloquear o avanço da doença.
     Eu já sabia que isto poderia acontecer mas, nessa altura do campeonato, prefiro ter qualidade de vida do que um pseudo aumento no tempo de vida. Não tenho a menor vocação para ficar vegetando como uma cenoura em cima de uma cama. Só quero continuar viva enquanto eu puder fazer as coisas que gosto, enquanto puder interagir com as pessoas que amo, enquanto puder viajar, comer bem, tomar um bom vinho, apreciar as belezas da natureza...
     Eu já tinha negociado estas coisas com minha médica. Estou segura do que desejo para minha própria vida e fui taxativa ao dizer que prefiro reduzir pela metade minha expectativa de sobrevida, desde que seja com qualidade. Não tenho vocação para mártir e nem quero ser modelo de força e coragem e ficar sofrendo dia após dias, sem perspectiva de melhora para, no final das contas, acabar morrendo cheia de dores.
     A conclusão do PET que fiz agora em agosto mostrou que houve um aumento em torno de 50 a 70% no metabolismo das lesões já existentes e ainda surgiram novas lesões. Uma verdadeira festa maligna. Que merda! Mas, fazer o quê? Tenho que lidar com a realidade sem entrar em desespero.
     Considero, no entanto, que ainda estou no lucro tendo em vista que meus órgãos vitais continuam preservados. Considero isto uma grande vantagem.
     Eu já estava com uma viagem agendada para outubro e minha médica disse que posso continuar com meus planos. Não faz o menor sentido deixar de fazer o que gosto para ficar curtindo tristeza. Nessa altura do campeonato o melhor a fazer é viver intensamente enquanto ainda tenho tempo e energia para isto. Será apenas mais uma pausa para viajar.

Conversa com o Mago Merlin durante a radioterapia

Já faz algum tempo que não escrevo nada. É que minha mão direita anda inchando muito e por isto preciso mantê-la para cima o maior tempo possível e, sendo assim, tenho que ficar longe do computador e de qualquer outro movimento repetitivo. Minha mão esquerda voltou ao normal depois que fiz o esvaziamento axilar então, para evitar qualquer problema, é melhor não fazer nada repetitivo com ela também.
Fiz o esvaziamento axilar esquerdo no dia 11 de maio e um mês depois, para minha frustração, já havia um nódulo de um cm fazendo festa na axila. Não tive alternativa que não fosse encarar as 25 aplicações de radioterapia. Já fiz treze aplicações, e ainda preciso fazer mais duas semanas e meia de tratamento.
No dia 14 de junho fiz o PET que evidenciou o aparecimento desse linfonodo na axila, com acentuado aumento de metabolismo. O linfonodo supraclavicular direito está estável e houve redução do metabolismo no linfonodo infraclavicular direito. O linfonodo gástrico, no entanto, deu uma piorada,  e ainda apareceu um retroperitoneal. Ninguém merece.
As lesões no músculo peitoral aumentaram sua atividade metabólica bem como a lesão no esterno. As demais lesões ósseas ficaram estáveis e o restante também.
Parece até uma tragédia, mas o diabo nem está tão feio quanto parece. De um modo geral estou bem e tolerando sem maiores problemas a radioterapia. Minha pele na região da axila está resistindo bravamente ao tratamento, mas também faço uso três vezes ao dia do creme que o hospital recomendou.
Quando entro na sala gelada de radiação procuro relaxar como aprendi com minha psicóloga. Assim que deito na máquina fria fecho os olhos e começo minha viagem para lugares onde me sinto bem. Como gosto muito de mata num instante me vejo na floresta de Broceliande, na Bretanha, conversando animadamente com o Mago Merlin. Andamos pela mata até a Fonte da Juventude e então a mágica acontece. Ao invés de pensar na radiação emitida pela máquina, penetrando meu corpo para destruir as células cancerígenas, prefiro imaginar que Merlin está usando sua varinha mágica para matar de uma vez por todas essas células malignas que insistem invadir meu corpo. É bem mais fácil e divertido brincar de mágica do que pensar na radiação.
A brincadeira com a mágica deve estar funcionando bem porque estou conseguindo fazer o tratamento sem sentir tantos efeitos colaterais como tive nas duas outras experiências com radioterapia.
O tratamento é diário, mas é muito rápido. O tempo gasto da hora que entro na sala e sou preparada para o início do procedimento até a hora de sair deve durar aproximadamente quinze minutos. A radiação propriamente dita é breve e dura entre um e dois minutos no máximo. É o suficiente para a eficácia do tratamento e desde a primeira aplicação já comecei a sentir um discreto desconforto na axila. Nada significativo, apenas um pequeno desconforto até o momento e espero que continue assim até o final.

Início de novo protocolo

     A ideia do tratamento com o herceptin, a carboplatina e o taxol estava me deixando apreensiva, pois já fiz dois ciclos desse protocolo em 2007 e tive uma neurotoxicidade periférica intensa que provocou paresia e parestesia das quatro extremidades. Na mesma ocasião tive paralisia da prega vocal e perdi a voz. Hoje recuperada, minha voz, além de rouca, é muito baixa e, vez por outra, fica quase inaudível.
     Entendi que esse protocolo é top. A rainha das medicações para casos como o meu. Pensei muito e, por fim, optei por não fazer o tratamento proposto pelo Dr. Fernando e iniciei um novo protocolo com o acompanhamento de outra oncologista, a Dra. Daniele Assad.
     Encerrar meu tratamento com o Dr. Fernando e sua equipe não foi fácil, mas depois de muita reflexão, e tomada a decisão de mudar, fiquei bem comigo mesma. Confio na Dra. Daniele, que já fez parte da equipe do Dr. Fernando e que agora faz parte da equipe do Hospital Sirio-Libanês.
     Iniciei o novo protocolo na última sexta-feira. Estou fazendo o herceptin na veia, a cada 21 dias (agora também existe a possibilidade de fazer essa medicação subcutânea). Também estou usando 1 comprimido de ciclofosfamida todos os dias, e dois comprimidos de metrotrexato duas vezes por semana. Uso também o Xgeva subcutâneo a cada 28 dias.
     Considerando que a maior parte do câncer metastático, que havia se espalhado para os gânglios da axila esquerda, foi retirado na cirurgia, e que ainda farei radioterapia nos nódulos remanescentes supraclaviculares e subpeitoral, optamos por deixar o protocolo mais agressivo como uma carta na manga, que poderá ser usado no futuro, se houver necessidade.
     Vamos experimentar essa abordagem nova por dois meses, repetir os exames para ver como meu organismo está respondendo, para decidir o que fazer daí para frente. Estou confiante que dará certo, pois o volume de doença, sem dúvida, diminuiu muito. Não sinto mais dor no braço esquerdo e os marcadores tumorais diminuíram consideravelmente.
     Até agora todas as decisões que tomei em relação ao tratamento foram benéficas para mim, afinal estou sobrevivendo as metástases há dez anos.  Estou sem dor e considero minha qualidade de vida muito boa até agora. É claro que já tive altos e baixos mas, nesse momento, estou bem. A cirurgia foi um sucesso e saber que fiquei livre da maior parte do câncer metastático teve um efeito psicológico muito positivo em mim.

Retirada de pontos cirúrgico e retomada dos ciclos quimioterápicos

     Na última sexta-feira tive consulta com o Dr. Fernando. Ele olhou a área da cirurgia na axila esquerda, disse que a cicatrização está ótima e perguntou-me se está mesmo descartada a ideia de fazer radioterapia. Respondi que por hora sim, mas que estou ciente de que pode ser que seja preciso fazer esse procedimento no futuro (espero sinceramente que isto não seja necessário).
     Ficou acertado que retomarei os ciclos de quimioterapia na próxima sexta-feira, quando completam 15 dias da cirurgia. Ficou também acertado que o novo protocolo será: carboplatina, taxol e herceptin, além do Xgeva. Já fiz dois ciclos com esse protocolo quando iniciei o tratamento há dez anos e, como já fiz todos os protocolos disponíveis para o meu caso, ele achou melhor repetir o tratamento que é o mais indicado para quem é HER2 positivo (a biópsia comprovou que os tumores na axila continuam sendo HER2 positivo). A imuno-histoquímica ficará pronta na próxima semana.
     Ontem fui retirar os pontos cirúrgicos com a Dra. Fátima. Foi tranquilo e indolor. Ela ficou satisfeita ao conferir que não existe acúmulo de líquido no braço que está normal e sem sinal de edema. Acho tão bom ver as ruguinhas em meus dedos e não sentir mais dor. É um verdadeiro alívio.
     A Dra. Fátima também ficou muito satisfeita quando conferiu que já estou conseguindo abrir e levantar completamente o braço operado. Isto é ótimo e assim não será preciso nem mesmo fazer fisioterapia. Agora é cuidar do braço com carinho para que ele continue bem. Para isto procuro mantê-lo elevado o maior tempo possível e evito ficar fazendo qualquer movimento repetitivo.
     Agora, o problema maior é que tenho que tomar o maior cuidado com ambos os braços. Não posso aferir pressão em nenhum deles e muito menos tomar injeção ou retirar sangue. Daqui para frente, aferir pressão arterial, só na perna, e retirar sangue terá que ser feito no pé, onde é bem mais dolorido. Mas, o que não tem remédio remediado está.

    

Cirurgia para retirada de nódulos na axila esquerda

     Entrar na sala gelada de um centro cirúrgico, para um procedimento agendado, é um tanto quanto assustador, por mais que o paciente tenha total confiança em seu médico.
     A Dra. Fátima é minha mastologista desde que tive o câncer primário em 1998 e tenho absoluta certeza de que eu não poderia estar nas mãos de uma cirurgiã mais competente e segura, mas os demais membros da equipe eram totalmente desconhecidos para mim.
     Deitei na maca coberta por lençóis imaculadamente brancos e no mesmo instante senti um calorzinho confortável acariciando meu corpo gelado, me livrando da sensação de estar exposta no ártico. Era uma espécie de aquecedor usado pelo hospital para dar mais conforto ao paciente que não está acostumado com um ambiente tão frio como o de um centro cirúrgico.
     O médico anestesista procurou me deixar bem relaxada brincando comigo. Como não é possível puncionar meu braço direito porque não tenho os gânglios linfáticos eles inicialmente puncionaram minha mão esquerda para iniciar o processo de anestesia. A Dra. Fátima avisou que não seria possível manter o acesso na mão esquerda porque ela iria operar a axila naquele lado então o anestesista avisou que só iria fazer o procedimento para que eu adormecesse antes de puncionar o veia jugular, em meu pescoço. Isto foi feito para evitar o desconforto da punção direta na jugular. Achei melhor assim.
     O anestesista aplicou uma injeção mas não senti sono. Fiquei deitada observando aquelas luzes acima da maca enquanto ouvia a Dra. Fátima discutindo os procedimentos cirúrgicos com a médica auxiliar. Ficou decidido que o tempo necessário para a anestesia seria de duas horas já que a cirurgia estaria concluída em uma hora e meia. O anestesista colocou a máscara em meu rosto e eu apaguei imediatamente.
     Acordei na sala de recuperação sem dor e com o braço e minha mão esquerda com a coloração normal. O inchaço tinha desaparecido como por encanto. Demorou um pouco até eu ser liberada para o quarto.
     Liguei para a Dra. Fátima assim que pude para agradecer o sucesso da cirurgia. O fato de estar com o braço normal, desinchado e sem dor, quando acordei da cirurgia; ver as rugas dos meus dedos no lugar de sempre me deixaram feliz da vida. Ela riu e brincou: você acha mesmo que fiz tudo aquilo para você continuar sentindo dor? Olha, a cirurgia foi muito maior do que previ. Perdi pelo menos um ano da minha vida e, para compensar, você tem que viver no mínimo mais dez anos.
     Isso é a cara da Dra. Fátima Vogt. Ela é ótima! Uma cirurgiã competente, mastologista comprometida com suas pacientes. Uma médica como poucas. Sou sua fã número um.
     Ela me explicou que o comprometimento na axila esquerda era bem maior do que os exames clínicos sugeriam. Foi necessário esvaziar os níveis um e dois para retirar todos os gânglios doentes. Um bloco deles estava comprimindo a artéria do braço causando com isso o inchaço e a dor. Ela limpou tudo e me livrou do problema.
     Tenho que agradecer primeiro a Deus que sempre me protege colocando em minha vida profissionais competentes e comprometidos. Agradecer a Dra. Fátima e a equipe que batalharam mais de três horas na cirurgia e conseguiram resolver meu problema. Agradecer a família e aos amigos que fizeram uma corrente de orações para que tudo desse certo.
     Agora é olhar para frente, aguardar o resultado da imuno-histoquímica para recomeçar a quimioterapia, tocar a vida e ser feliz com o que tenho nas mãos. Sou uma pessoa de sorte e ainda estou dentro do meu prazo de validade, e com qualidade de vida. Olha que legal!