Um giro pela Bretanha - Dinan

     Acabei de chegar de Dinan, uma cidade medieval no interior da Bretanha, localizada  na Região de Côtes-d'Armor, e bem pertinho de Dinard onde estou hospedada. 


     Foi muito fácil chegar em Dinan. Embarcamos num ônibus confortável que ia até Rennes e pagamos apenas 3,30 euros por pessoa pela passagem. O trajeto de Dinard até Dinan durou aproximadamente 30 minutos e desembarcamos no centro histórico, perto da prefeitura (Hotel de Ville)

prefeitura (Hotel de Ville)


     Caminhamos pelas ruas estreitas do centro histórico apreciando as construções antigas, umas casinhas bem tortas, encarapitadas umas nas outras, datadas do período medieval. A base destas casas são feitas de madeira, por isto elas acabaram ficando tortas, pois a madeira envergou de tão antiga e parece só estar de pé porque uma casa segura a outra.


     Descemos a Rue de Jerzual, que é íngreme de dar medo e preguiça, e vimos casinhas construídas no ano de 1463 (mais velhas do que nosso Brasil). Elas são casinhas bem pequenas e baixas, e são coladas umas nas outras. Descer por esta rua nos deixa com a impressão de voltarmos no tempo... um tempo que deve ter sido muito difícil de ser vivido. Fiquei imaginando aquela rua íngreme coberta de neve e muito escorregadia... deve ser um perigo até hoje, no período medieval sem dúvida era um verdadeiro terror.



não tem calçada e as casas ficam ao nível da rua

     No meio do caminho vi uma senhora saindo de uma daquelas casinhas e fiquei tentando imaginar como será viver numa construção do período medieval, tão antiga, em pleno século 21... não deve ser fácil até hoje e nem consigo imaginar como seria naqueles tempos difíceis. 



     Desci a rua com muito cuidado e bem devagar. Meu botinão ajudou bastante com o solado grosso e apropriado para terrenos acidentados.

     O Lionel nos mostrou uma construção que era usada para que as mulheres pudessem lavar roupas. Era uma espécie de lavanderia do período medieval, um galpão coberto, mas aberto na parte da frente e com um tanque feito de pedra no chão de uns dois metros quadrados mais ou menos (eu não queria ser uma lavadeira naqueles tempos, pois devia ser duro lavar roupa agachada num tanque enorme e cheio de mulheres tagarelando e lavando, falando mal dos maridos e  reclamando do filhos).




 No final da descida chegamos na beira do rio Rance. Algumas crianças bem jovens estavam aprendendo remar. Na Bretanha as crianças ainda muito jovens já são iniciadas na arte da navegação, afinal a Bretanha está cercada de água por todos os lados.


     Naquela altura do dia já era hora do almoço. Paramos num dos restaurantes que ficam na beira do Rio Rance para almoçar. A Maura e o Lionel pediram carne e acertaram no pedido, mas eu e a Helena optamos por uma ave. Não era frango porque tinha muita gordura. Acho que talvez fosse uma galinha d'angola, mas não tenho certeza. Ainda bem que nossa sobremesa estava uma delícia.


     Depois do almoço teríamos que subir a ladeira de volta. Olhei para a altura da ladeira e disse para a Helena que eu preferia voltar de táxi. Ela topou na hora e todos concordaram, foi o que fizemos. O taxi nos deixou no Castelo de Dinan. Fiquei impressionada com a largura da parede que circunda o castelo.



olha só a largura da parede dos muros!

     Saímos do castelo e fomos caminhando até a praça da cidade. Cansados, fomos voltando devagar em direção ao ponto do ônibus em frente a prefeitura. Enquanto esperávamos o ônibus chegar o Lionel tomou um café e a Helena e a Maura comeram um creme brulée.
     O passeio em Dinan vale a pena. A cidade é um charme e é uma oportunidade que o turista tem de voltar no tempo...

Pagando mico em Saint Malo

     Eu caminhava pelas ruas estreitas de Saint Malo quando vi na vitrine de uma loja de antiguidades alguns netsuquês expostos. Curiosa me aproximei para observar melhor e pude ver vários exemplares esculpidos em madeira, marfim e madrepérola, cada um mais delicado do que o outro. Todas as peças eram lindas, mas um cisne negro esculpido em madeira chamou minha atenção. 
     Fiquei algum tempo admirando a vitrine e, não resistindo, acabei entrando na loja. O dono do estabelecimento veio me atender e começamos a conversar. Ele mostrou vários objetos e perguntou qual eu gostaria de ver de perto. Apontei o cisne negro e ele muito gentilmente abriu a vitrine, retirou o cisne e o colocou em minha mão, mesmo sabendo que eu não iria comprar nada. Acho que ele ficou intrigado em ver meu interesse por um objeto pouco comum, caro (mais de 400 euros uma miniatura de pouco mais de 2cm), e que interessa apenas a colecionadores.
     Conversa vai, conversa vem, contei-lhe que aprendi a apreciar os netsuquês depois que li o livro A Lebre dos Olhos de Ambar. Como ele também havia lido o mesmo livro conversamos um pouco mais sobre o assunto e então saí da loja.
     O Lionel e a Helena, amigos que me acompanhavam no passeio, estavam na calçada mas não consegui ver a Maura. Olhei em volta e como vi uma pessoa muito parecida com ela fazendo compras numa boulangerie falei para Helena que entrou na loja para chamá-la. Ela chegou bem perto da senhora e cochichou baixinho em seu ouvido: o que você está comprando agora Maura? A senhora, uma malouine genuina, olhou assustada para a Helena sem entender a abordagem. Helena, muito sem graça se desculpou, explicou em francês que a confundira com uma amiga, e saiu de fininho da loja o mais rápido que pode. Já na rua ela nos contou o mico com a francesa e caímos os três na gargalhada.
   A nossa amiga Maura, toda serelepe, estava mais adiante bem tranquila apreciando uma vitrine com objetos típicos de Saint Malo.

Um giro pela Bretanha - Saint Malo

     Optamos por um barco para irmos de Dinard a Saint Malo, a cidade fortificada que abrigou famosos corsários, marinheiros, grandes negociantes e artesãos. Saint Malo foi também o primeiro porto da costa norte da Bretanha.

    Para chegarmos ao pequeno porto de Dinard fizemos uma curta caminhada desde a Plage de L'Ecluse, onde fica nosso hotel, passamos pela Promenade des Anglais e embarcamos num barquinho acanhado. A travessia pelas águas do Canal da Mancha e do Rio Rance durou pouco mais de 15 minutos e aportamos em Saint Malo.



     A visão da grande muralha que cerca a cidade impressiona. A fortaleza é bem alta e larga, tão larga que é possível andar em seu topo que tem aproximadamente uns 2m de largura. Sua base mede 6 metros de largura e alguns quilômetros de extensão.


     A altura do muro deve-se a variação das marés que pode chegar a até 14 metros. Na maré baixa, como aparece nas fotos, é possível ver as pedras e a areia da praia, mas quando a maré sobre, principalmente no mês de outubro, fica tudo submerso e as ondas podem arrebentar dentro do muro. Alguns turistas destraídos costumam ficar ilhados por causa da subida das marés e precisam ser socorridos por barcos que já ficam a postos para resgatar estes turistas incautos. 



     Entramos na cidade murada pela Porta de Dinan. Fomos conhecer a igreja onde estão os túmulos de Jacques Cartier, descobridor do Canadá, e de René Duguay-Trouin, um famoso corsário. Depois fomos caminhar pelas ruas estreitas da cidade até a fome nos arrastar para um dos muitos restaurantes que ficam próximos do castelo. São famosos os pratos de mariscos e ostras em Saint Malo, mas optamos por um confit de canard com molho de laranja e salada que estava muito bom (não aprecio ostras e mariscos). A sobremesa foi uma torta de maça e de frutas vermelhas. 



     Terminado o almoço fomos caminhar em cima dos muros que cercam a cidade. A vista lá de cima é linda! De lá avistamos a ilha onde está enterrado o escritor e diplomata François-René de Chateaubriand, que pediu para ser enterrado naquele local para que pudesse continuar sua conversa com o mar que ele tanto amava.



     Voltamos para Dinard no final da tarde porque todos já estavam muito cansados. Amanhã será mais um dia para explorarmos os caminhos da Bretanha.

Um Giro pela Bretanha - Dinard

     Apesar da Gare de Montparnasse ficar muito próxima do nosso hotel, chamamos um taxi. O motorista não ficou satisfeito por fazer uma viagem curta, mas argumentei que éramos três senhoras e não estávamos mais na idade de sair arrastando malas pelas ruas. Na estação encontramos um carregador para levar e colocar nossas malas no trem, uma mordomia que valeu a pena e custou apenas 5 euros.
     A viagem para Saint Malo durou 3 horas e foi muito tranquila. A passagem do TGV custou 68,00 euros.
    Chegamos em Saint Malo e logo vimos nosso amigo Leonel que nos aguardava na estação. Pegamos um táxi e fomos direto para Dinard, cidade vizinha. O que separa as duas cidades é o Rio Rance. Assim que nos acomodamos no apart hotel que já estava reservado saímos para almoçar.


 

   Nosso almoço no Restaurante Chez ma pomme estava divino. Um manjar dos Deuses. A dourada que pedi estava ótima mas o beauf bourguignon da Helena e da Maura estava muito melhor. A entrada foi uma maça cortada em tiras finas com mel e queijo Saint Marcellin. Uma delícia. A sobremesa foi creme bruleé enriquecido com morangos muito doces, mas eu tive que me contentar com uma simples salada de frutas.



     Depois do almoço fomos caminhar pela cidade que é muito charmosa e tranquila. Voltamos para o hotel por volta das seis horas porque estávamos muito cansadas. Tenho que admitir que a idade é um fardo duro de carregar... não tenho mais a vitalidade dos vinte anos, que pena. 
     

Chegando em Paris

     O embarque em Brasília correu tranquilo. Usei a cadeira de rodas e fui conduzida por um funcionário até a sala de embarques. Minhas companheiras de viagem puderam me acompanhar, o que foi bom para todas.
     Enquanto aguardávamos na área de embarque entrou um agente da polícia federal com um cachorro policial de todo o tamanho, enorme. O bicho saiu farejando as bagagens de mão e um burburinho logo se formou. Parece que estavam procurando drogas e acabaram abrindo uma mala que estava com pacotes de pó de café entre as roupas. A dona da mala foi chamada para se explicar e ficou aflita com a situação. Ainda bem que era só pó de café mesmo, mas tudo acabou no lixo.
     Quando os portões foram abertos entramos na frente de todos por causa da cadeira de rodas. A viagem transcorreu na maior tranquilidade. Não houve turbulências para assustar ninguém.
     Paris nos recebeu com céu azul, sol brilhando e temperatura agradável. Na saída do desembarque recebemos um panfleto com propaganda de uma van e optamos por este tipo de transporte que nos deixou na porta do hotel por apenas 15 euros por pessoa. Bom, barato e eficiente. Aprovamos o serviço da Iberia. O site para reservas é www.airport-shuttle-one.com\iberia. O telefone é 06-98-162424.
     Nosso hotel era o Mistral, que fica nas proximidades da Gare de Montparnasse. Optamos por aquele hotel porque no dia seguinte, às 10 horas da manhã, iríamos pegar o trem para Saint Malo. O hotel Mistral foi também o endereço de Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre em Paris por um longo tempo.


     Fomos até a estação e compramos nossas passagens, em seguida paramos num dos vários restaurantes nas proximidades da Gare mas assim que sentamos a Helena percebeu que havia esquecido a carteira com dinheiro e todos os cartões no balcão de atendimento da estação. Ela ficou aflitíssima e então voltamos o mais rápido possível, mas ela estava tão nervosa que não conseguia sequer saber como chegar até o guichê onde compramos nossas passagens. Eu que sou a desorientada do grupo, porque estava calma, consegui chegar  no balcão de atendimento a grandes linhas sem problemas. A Helena não conseguia lembar como falar carteira em francês, então gastei o meu inglês, mas a jovem logo nos reconheceu e foi pegar a carteira que ela havia guardado em local seguro. Um verdadeiro alívio. Agradecemos e quase abraçamos a jovem, como boas brasileiras que somos, mas conseguimos conter nosso entusiasmo. Rimos juntas da situação que serviu para nos alertar e tomar mais cuidado com nossos pertences.
     Voltamos para o restaurante e enfim conseguimos almoçar em paz e sem pressa. Em seguida saímos passeando pelas redondezas e depois voltamos para o hotel. O dia foi cheio de muitas emoções e estávamos exaustas. Dormimos cedo e por causa do fuso horário acabamos acordando por volta da meia-noite local e ficamos papeando por mais de duas horas na cama até conseguirmos dormir novamente.     

Próximo destino: Bretanha - França

     Na próxima terça-feira embarco para minhas féria na Bretanha. Estou ansiosa e meu coração bate descompassado, como o dos apaixonados. Também sou uma apaixonada. Apaixonada pela vida, pela família, amigos, viagens, pela oportunidade de conhecer o mundo, outras culturas, outras pessoas.

imagem da internet

        Meu próximo destino fica no extremo oeste da Europa. A Bretanha é uma região da França cercada pelas águas do Canal da Mancha e o Oceano Atlântico, o mesmo oceano que banha a costa brasileira. O Canal da Mancha, um braço de mar com 563 km de comprimento, liga o Oceano Atlântico ao Mar do Norte e separa a Grã-Bretanha do norte da França.

 Saint-Malo

         A Bretanha é a terra dos marinheiros, das cidades fortificadas e das lendas celtas. É também a terra da cidra, dos morangos, dos crepes, dos biscoitos amanteigados e dos caramelos com manteiga salgada. Dizem que os crepes e os caramelos são uma delícia. Vou conferir.

 Floresta de Paimpont

          A história do mago Merlin, de Morgana e do lendário Rei Arthur é ambientada entre as árvores do Bosque de Paimpont, no interior da Bretanha. Esta parte da frança cercada de águas é cheia de enseadas, longas praias, muitos portos e baías. Vou conferir tudo de perto, deve ser lindo.

 maré alta em Dinard

          Ficarei hospedada em Dinard, uma cidade tranquila, com clima ameno e belas praias. Na primeira semana de outubro a cidade fica muito movimentada porque é lá que acontece o Festival de Cinema Britânico, mas a partir da segunda semana deve ficar bem sossegada por ser baixa estação. A vizinha Saint Malo é mais conhecida e badalada. É uma cidadela fortificada, de ruas estreitas, cercada por altas muralhas. É a cidade dos corsários.

 Saint-Malo

          Eu e minhas duas amigas vamos fazer nossa base em Dinard e de lá sairemos sem pressa e hora marcada pelos caminhos da Bretanha e da Normandia. Vamos explorar a região durante as três semanas que ficaremos em Dinard. Nossa quarta e última semana ainda está em aberto. Vamos ver para onde o vento irá nos levar...

Validade dos medicamentos

     Sexta-feira passada foi mais um dia de quimio. A clínica estava lotada... péssimo sinal, sinal de que as pessoas estão adoecendo mais. Esperei um tempão por um box vazio, mas acabei fazendo a quimio no box coletivo que também estava cheio. 
     Fiquei observando aquelas pessoas idosas passando por quimio... tão triste. Longevidade e qualidade de vida não costumam andar juntas. Não quero virar um matusalém doente e cheio de ziquiziras. Enquanto eu puder ir e vir com minhas próprias pernas está bom caso contrário, prefiro partir.
     E por falar em partir na sexta-feira eu também peguei as duas caixas do tykerb, a quimio oral que faço diariamente em casa, em jejum. Peguei o remédio, coloquei na bolsa, assinei os papéis e esqueci do assunto até chegar em casa e conferir a data de validade da medicação. Vocês acreditam que o vencimento das duas caixas será no dia 30 de setembro!  Os comprimidos (5 por dia), dão para 28 dias e eu comecei a tomar a medicação hoje, é só fazer uma simples operação matemática: o remédio vai estar vencido antes de terminar a segunda caixa.
     Não posso aceitar que uma clínica oncológica, que mantém um farmacêutico de plantão para controlar a medicação dos pacientes, possa entregar um remédio quimioterápico com o prazo de validade vencendo. Tudo bem que um remédio cujo prazo de validade expira no dia 30 de setembro não irá matar o paciente que vier tomá-lo no dia primeiro de outubro, mas será que a eficácia da medicação será efetiva? Não acredito. Deve existir uma lógica para a indicação do prazo de validade nos produtos a serem consumidos. Esta obrigatoriedade não pode ser um simples capricho de quem criou esta exigência. 
     Prefiro acreditar que foi apenas uma distração do farmacêutico, mas de qualquer forma é uma situação muito séria e grave. O tratamento que faço é para câncer. Não estou apenas resfriada e com dores pelo corpo. Tenho câncer em estadiamento IV e isto significa que a doença já está espalhada com várias metástases pelo corpo. Ou será que pensaram que eu não iria conferir a validade? Se pensaram assim erraram redondamente. Estou viva até hoje porque sempre estive muito atenta ao tratamento que faço.
     A qualidade de um serviço médico e hospitalar passa por estes pequenos detalhes. O prazo de validade dos remédios precisam ser observados com cuidado. Quem me garante que a medicação que faço na veia, preparada pelo mesmo farmacêutico, está dentro do prazo de validade? Agora bateu uma dúvida...