Um giro pela Bretanha - Explorando Dinard

     Sempre acordo muito cedo, e na última quinta-feira não foi diferente. Ainda não havia amanhecido em Dinard, e o luar deixava um rastro de luz prateada no céu escuro, estava lindo. Devagar, quase com preguiça de amanhecer, o dia foi se insinuando aos pouquinhos e quando finalmente se instalou, revelou um céu azul sem nuvens e um sol radiante. O dia estava perfeito. Perfeito pra gente se perder pelas ruas de Dinard, e foi o que fizemos logo depois do café da manhã.


     Saímos caminhando sem pressa em direção a praia de Saint-Enogat, onde Dinard começou, conhecendo suas ruas calmas e quase sem movimento naquela manhã. Aproveitamos para registrar em fotos paisagens bucólicas de uma cidade calma, que passa a impressão de não ter pressa. Os jardins das casas de pedra são lindos e quase todos exibem uma profusão de hortênsias de diferentes tonalidades e outras flores coloridas que nem sei os nomes. As macieira carregadas de frutos vermelhos também são comuns nas paisagens dos jardins e nas estradas da Bretanha. Outra característica marcante são as casas cobertas de hera, que nesta época do ano estão vermelhas e tão vistosas que não conseguimos desviar o olhar.


     Observei um homem sobre um andaime lavando uma casa de pedra típica daqui com uma máquina de pressão. Pensei: aqui eles não precisam pintar a fachada das casas como fazemos no Brasil, mas precisam remover o limo das pedras das casas para conservá-las com bom aspecto.


     Passamos em frente ao cemitério de Saint-Enogat e não resistimos, resolvemos entrar para ver de perto como os bretões enterram seus mortos. As lápides são parecidas com qualquer outra, mas o detalhe que chamou nossa atenção foram as flores sobre os túmulos. A grande maioria deles exibia uma simples flor solitária ou até uma enorme coroa de flores feitas de porcelana. Eram belas, delicadas e coloridas e a vantagem é que não murcham e nem precisam de cuidados. Estão sempre vistosas e bonitas.


     Dali para o centro de Saint-Enogat foi um pulo. Passamos por uma floricultura e pude conhecer um fruto que eu nunca havia visto antes e nem ouvido falar: mão de buda. É um fruto curioso, todo segmentado. Lembra dedos com pele grossa e rugosa, lembra tentáculos... é um fruto estranho, mas de intensa fragância.


    Curiosa que sou fui pesquisar na internet e vi que a mão de buda é uma variedade de limão, só que sem sua acidez. A polpa é doce e carnuda, mas sem suco ou sementes. Curioso não? É de origem asiática.



     Andamos mais um pouco e chegamos na fonte Julio Verne que estava funcionando e jogava água a metros de altura. Mais tarde perguntei ao David o que Julio Verne tinha a ver com a cidade de Dinard e ele contou que o escritor morou por algum tempo na cidade. Por isto a homenagem.


     A igreja, muito antiga, está sempre com a porta lateral aberta. Basta girar o trinco. Entrei caminhando sobre o piso de pedras antigo, mas o cheiro de mofo estava forte então não fiquei lá muito tempo. Fiquei imaginando no quanto deve ser complicado assistir a uma missa inteira dentro daquela igreja.



     Continuamos nossa caminhada até chegarmos na praia que estava quase deserta, havia apenas um bando de gaivotas pousado na areia molhada. Fui me aproximando e elas aos poucos foram se afastando com cara de poucos amigos e quanto mais eu me aproximava mais elas caminhavam para perto d'água até levantarem vôo para pousarem um pouco mais adiante.


      Eu não tinha a intenção de assustar as gaivotas, o que eu queria mesmo era ver mais de perto uns buracos na rocha em frente a praia onde os alemães fizeram um bunker na época da Segunda Guerra. O Lionel nos contou que ali naqueles buracos ficavam uns canhões apontados para a praia e que em sua infância ele e alguns amigos brincaram com uma ogiva que encontraram na praia. Só não morreram porque anjo da guarda de criança é forte. Os bombeiros ficaram sabendo da façanha e confiscaram o artefato que estava carregado e só não detonou por muita sorte. Até hoje ele ri quando lembra da aventura.


      Voltamos caminhando devagar para nossa casa. A praia de Saint-Enogat não fica muito longe da praia de l'Ecluse onde estamos e a promenade Clair de lune vai mageando a escarpa de uma praia até a outra. Fizemos uma pausa no caminho neste belo jardim em frente ao mar. A Maura viu uma árvore carregada de frutinhas maduras e ficou doida para experimentar, e como vimos uma abelha sugando o néctar deduzimos que se não matava a abelha não podia matar uma pessoa também. Comemos alguns frutinhos que com certeza não são venenosos, pois estamos vivas até hoje para contar a história.



Triskel - um dos símbolos da Bretanha e da cultura celta (texto da Helena)

       Fomos novamente a Saint-Malo e novamente nos perdemos pelas ruas estreitas da antiga cidade, parando aqui e ali com um olhar descompromissado. Vimos numa dessas lojas de souvenirs vários objetos com um símbolo celta, uma espécie de estrela de três pontas, ou melhor, de três espirais concêntricos, que representa as tríades da vida em eterno movimento:
- nascimento, vida e morte
- corpo, mente e espírito
- céu, mar e terra
   Podemos citar várias tríades relacionas à vida em movimento, mas o que impressiona neste conceito é que a impulsão é sempre para frente, como se nela estivessem implícitas simbologias relacionadas à ação, a ciclos, progresso, evolução, transformação... São múltiplos os exemplos que atestam a sabedoria celta, sua cultura e suas histórias mitológicas.
       O significado do triskel é muito mais amplo do que num primeiro momento possa parecer, nele está inserido o crescimento pessoal, o desenvolvimento humano e a expansão espiritual.
       Agrada-me muito esta idéia de movimento... Parar é estagnação e estagnação é o princípio do fim. Avançar sempre. Este é o lema. 

pesquisas da Lou:

     A origem do triskel ou triskle, o espiral que representa a vida em eterno movimento e equilíbrio, é atribuida aos povos mesolíticos e neolíticos. O celtas consideravam o 3 como um número sagrado.
     Entre os vários significados, o triskel também representa os três poderes da donzela, mãe e anciã. É um sinal do poder feminino. (este eu gostei)

Um giro pela Bretanha - Château de Combourg

     Nossa intensão era conhecer o castelo de Bourbansais mas como o mês de outubro é baixa temporada na Bretanha demos com o nariz na porta, o castelo estava fechado. A notícia boa é que a próxima semana será de férias para os estudantes bretões, por causa do feriado de Todos os Santos, e o castelo reabrirá, então faremos uma nova incursão por lá e ainda iremos conhecer o zoológico para assistirmos ao show com os falcões. Adoro aves de rapina, e quero muito ver esse show.



     Pelo pouco que pude ver, o zoológico que funciona junto ao castelo não mantem os animais em pequenas jaulas como a maioria dos zoológicos o fazem. Aqui os animais ficam soltos em grandes espaços gramados e com árvores. Pelo menos era assim o espaço onde ficam as zebras e os bizões, que vi logo na entrada.


     Fomos então conhecer o Château de Combourg que fica a poucos quilômetros de Bourbansais.


    O Castelo de Combourg foi construído em 1025 pelo Arcebispo Guinguené. Setecentos anos depois foi adquirido pelo pai de François-René Chateaubriand. O romancista passou toda sua infância e parte da juventude naquele castelo frio e sombrio. A casa era grande demais para a família, então o pai, para ocupar todos os cômodos do castelo, decidiu que o quarto do menino seria em uma das torres do castelo, com vista para o rio.

     Posso até imaginar o medo que o menino sentia dormindo sozinho num quarto distante do quarto dos pais. O barulho do vento que vinha do rio e sibilava entre as árvores do jardim, entrando sorrateiramente pelas frinchas do castelo devia parecer assustador demais para o pequeno. O pobrezinho deve ter passado por muitas experiências ameaçadoras aos olhos de uma criança.


     O jardim do castelo é enorme e a grama verdinha se estende até perder de vista. Árvores centenárias enfeitam os caminhos onde alguns banquinhos nos convidam a sentar e curtir um pouco a beleza que a natureza pode nos oferecer. Vimos um velho pinheiro com mais de 200 anos. Ele já viu muita coisa acontecer, já passou por muitas intempéries e está lá, resistindo bravamente à passagem do tempo.


     O tour para conhecer o castelo por dentro não foi muito fácil para mim e nem para a Helena. O cheiro forte de mofo naquelas paredes centenárias incomodou bastante, precisei até colocar um lenço no nariz para aguentar até o final porque não tinha como voltar sozinha. Subimos muitas escadas para chegar até a torre onde o menino Chateaubriand dormia sozinho. Para a Helena foi um verdadeiro tormento subir e descer aquelas escadas em espiral, estreitas e escuras, além de frias. Ela não enxerga bem, mas o David que nos acompanhou,  a amparou o tempo todo.


     O quarto do menino Chateaubriand ainda mantêm sua cama e um armário, e uma vitrine que fica ao lado  da cama exibe a múmia de um gato preto que foi encontrado nas paredes do castelo por ocasião de uma restauração.

     A história do gato preto é um pouco sinistra. No período medieval, época da construção do castelo, era costume encerrar nas paredes de uma obra nova um gato preto vivo para espantar a má sorte. O coitado do gato é que tinha de fato a má sorte de morrer enterrado vivo. Eles também costumavam enterrar uma criança natimorta ao invés do gato (pelo menos tinham o bom senso de enterrar uma criança que já havia nascido morta). Crendices podem se tornar um grande problema... os gatos pretos que o digam...    

Férias baratas na Europa

     Hoje o David só virá nos pegar às 14h para irmos a Bourbansais, e como o dia amanheceu nublado e chuvoso, com aquela chuvinha fina e gelada, vou aproveitar para ficar em casa lendo, escrevendo, fazendo nada... só curtindo a preguiça numa sala aquecida, acompanhada por duas amigas queridas que não perdem a oportunidade de jogar um buraquinho on line. A Helena também gosta muito de ler e escrever e quando o faz parece não perceber mais o mundo à sua volta. Parece até entrar em transe, de tão concentrada que ela fica.
mapa da Bretanha

     Preciso comentar uma tremenda coincidência que acabou de acontecer: a Maura e a Helena estão jogando buraco on line e a Maura comentou comigo em voz alta o curioso nome da adversária dela. A Helena ouviu e disse: eu estou jogando com ... será que somos adversárias? Fui conferir e não é que as duas, entre tantos jogadores on line, são adversárias. É muita coincidência. Vamos ver quem leva esta jogada.
     Estive pensando no quanto foi bom e está sendo proveitoso termos alugado um apartamento numa cidadezinha pequena na França e quero dividir isto com meus leitores: somos três amigas que se dão muito bem, e isto faz toda a diferença. Alugamos um apartamento em Dinard, na Bretanha, e cada uma de nós pagou 600,00 euros, um valor razoável por três semanas na europa. Daqui podemos ir a várias cidades interessantes e que ficam bem próximas como Saint-Malo, Monte Saint-Michel, Dinan e várias outras cidadezinhas medievais perdidas na Bretanha.
     Nosso apartamento é ótimo! Temos uma sala grande que cabe um sofá cama que vira duas camas de solteiro, dois pequenos armários, uma mesa redonda com 4 cadeiras e duas poltronas. No quarto temos uma cama de casal e um bom armário, mais as mesinhas de cabeceira. A cozinha é compacta mas tem tudo o que precisamos: fogão, geladeira, cafeteira, torradeira, micro ondas e forno elétrico enfim, tudo o que é essencial numa cozinha. O banheiro é espaçoso e o sanitário fica separado do chuveiro. Temos uma banheira, secador de cabelos e também um pequeno closet na entrada, entre a porta e a sala. Não ficamos tropeçando uma na outra.
     A Maura, que gosta de cozinhar, prepara nosso café da manhã e nosso lanche noturno que costuma incluir uma deliciosa sopa que compramos pronta no supermercado, mas que ela melhora com seu toque pessoal. De vez em quando, como hoje, também almoçamos em casa e vale muito a pena, pois a comida nos mercados são inacreditavelmente mais baratas do que no Brasil. Os queijos e vinhos deliciosos merecem um capítulo a parte.
     A Helena lava as louças, pois são tão poucas que não achamos que valha a pena ligar a máquina para lavar três pratos, três xícaras e talheres, mas de qualquer maneira existe a opção da máquina de lavar louças. Eu, que sempre tive mania de jogar lixo fora, faço o mesmo aqui. Dou uma varridinha na casa, recolho todo o lixo e levo para a lixeira que fica no corredor. Assim dividimos o trabalho sem sobrecarregar ninguém.
     Acabei de ouvir palmas e vaias. Uma veio do computador da Maura e a outra do computador da Helena. Qual das duas levou a jogada?
     Nós ainda demos sorte aqui em Dinard porque encontramos o David que trabalha como taxista. Ele é ótimo. Dirige bem, é calmo e tem nos cobrado preços muito justos por todos os passeios em cidades mais distantes. Como boas brasileiras que somos tratamos o David como um velho amigo e ele acaba nos acompanhando nos passeios também. Acho que ele não está acostumado com este tipo de tratamento, mas parece estar gostando da experiência. Caminhamos juntos, ele nos conta as histórias curiosas do local visitado, chama nossa atenção para coisas interessantes e até auxilia a Helena caminhar e descer escadas porque ela não enxerga bem. Ele já nos levou a lugares lindos e muito legais que só um local conhece bem. Outro dia ele parou numa fazenda de criação de patos e gansos para a Helena comprar um foie gras. Segundo o David o foie gras de pato que ela comprou é ainda melhor do que o de ganso e um dos melhores da frança. Na Côte de Granite Rose ele colheu uma linda hortênsia e ofereceu de presente para a Helena que ficou toda derretida com o gesto de carinho.


     Sou uma pessoa muito afortunada. Estou tão feliz como pinto no lixo enquanto viajo pelos caminhos da Bretanha. Sinto-me bem e estou dando conta de fazer tudo o que tenho vontade, quase sem restrições. Se eu contasse ninguém iria acreditar que sou paciente oncológica e uso quimioterápicos diariamente e ainda por cima tenho um dos pés quebrados. Tenho andado prá todo lado e meu pé está funcionando tão bem que até eu fico duvidando do fato dele estar quebrado mesmo. Só sei que continua quebrado porque o RX não deixa dúvidas sobre isto.


     Nada como alegria e felicidade para encher o corpo de endorfinas. Não existe nada melhor para a saúde do que alegria e entusiasmo pela vida. E é bom demais viajar sem stress e acompanhada de amigas queridas.

É proibido viajar em pé

     O tempo ruim, que é comum por estas bandas, parece que veio para ficar. Ontem amanheceu chovendo e o dia todo o tempo ficou ruim: dava uma estiada e depois voltava a chover. Não era uma chuva forte, era chuva de molhar bobo; aquela chuvinha que você jura que não vai fazer diferença mas que no final do passeio te deixa encharcada o bastante para pegar uma gripe daquelas de encomenda. Ainda bem que eu estava usando meu abrigo novo que protege da chuva fina ou forte e do vento gelado também.
     Ontem eu, a Helena e o Lionel fomos passar a tarde Saint-Malo, e fomos de ônibus. É muito fácil e barato: a passagem custa apenas 2,30 e a parada do ônibus fica bem perto do nosso apartamento em Dinard. A Maura preferiu ficar jogando no cassino em Dinard. Ela adora brincar naquelas máquinas de caça-níqueis.
     Quando entrei no ônibus e fui pagar a passagem devo ter falado alguma coisa em português com a Helena. O motorista, que era português, ficou todo animado e falou comigo em português também. Rimos juntos porque é sempre bom encontrar alguém que fala a nossa língua quando estamos longe de casa.
     Chegamos em Saint-Malo pela Porta Vincent, que fica perto do castelo. Caminhamos pelas ruazinhas estreitas da cidade intramuros procurando um sapato confortável para o Lionel. Entramos em várias lojas de sapato e eu até fiquei surpresa com a quantidade delas naquela cidade tão pequena, mas depois que saímos da cidade intramuros percebi que Saint-Malo é muito grande do lado de fora das muralhas.
     O Lionel é exigente e custamos a encontrar alguma coisa que se encaixasse no bolso e no gosto dele. Finalmente ele encontrou o sapato que queria e o preço foi até razoável para os padrões daqui. Sapato na Bretanha, pelo que vimos até agora, é um artigo caro demais. O pior é que todo mundo precisa andar calçado por aqui porque o frio e a chuva não permitem que os pés fiquem descobertos e desprotegidos.
     A chuva voltou a cair em Saint-Malo e o friozinho convidava a um chocolate quente. Foi o que fizemos. Paramos num lugarzinho simpático e aquecido e tomamos um gostoso chocolate quente que serviu para aquecer nosso corpo, e a conversa agradável e descontraída aqueceu nossos corações reforçando nossa amizade.
     Quando pegamos o ônibus de volta para Dinard eu e a Helena sentamos nas duas primeiras cadeiras e observei uma coisa interessante. Era hora da volta dos alunos para casa e numa das vezes que o ônibus parou o motorista não abriu a porta. Primeiro ele se levantou e foi até o final do ônibus contando os assentos vazios para saber quantos alunos poderiam entrar e então ele abriu a porta do ônibus e falou com os alunos que entraram em silêncio e sem fazer algazarra. Dois deles ficaram para trás, é proibido viajar em pé.
      Chegando em Dinard passamos primeiro no cassino para pegar a Maura que saiu de lá toda murchinha. Desta vez ela perdeu no jogo todo o dinheiro que tinha levado. Ainda bem que ela estabelece um limite para jogar porque senão ela perderia todo o dinheirinho que trouxe para a viagem.

Um giro pela Bretanha - Côte de Granit Rose

     Fomos finalmente conhecer a Costa de Granito Rosa que se estende por 7 quilômetros na Côte-d'Armor, ao norte da Bretanha. A peculiaridade desta praia é a profusão de enormes pedras de granito cor de rosa. Essas rochas com 300 milhões de anos, esculpidas pelo vento e pelas águas durante todo esse tempo, surpreendem qualquer turista por sua excepcional beleza.



     A Costa de Granito Rosa também é a mais importante reserva ornitológica da França. São mais de 25.000 casais de pássaros como o papagaio do mar e outros.


      A areia da praia é rosa e grossa;  parece um monte de pedrinhas de granito triturado. É tudo rosa, até as escadinhas nos caminhos da praia (que aqui eles chamam de promenade) são feitas de granito rosa.



       Pela manhã quando saímos do hotel o tempo estava nublado e no meio do caminho, na altura de Saint Brieuc, uma chuva leve resolveu mostrar sua cara, mas parou logo. A viagem de Dinard até Ploumanac'h durou exatamente duas horas. A estrada é muito boa e bem sinalizada. Passamos por várias pequenas cidades da Bretanha com suas casinhas feitas de pedras e jardins repletos de hortênsias e macieiras carregadinhas de frutos vermelhos e apetitosos. Um charme.


     Estacionamos em Ploumanac'h e do carro olhei para a praia e não vi as pedras cor de rosa, pois com o tempo encoberto, de longe elas pareciam meio marrons. Na hora me lembrei de um casal de idosos que encontramos numa de nossas caminhadas pela praia em Dinard e que pararam para conversar conosco. Quando comentamos que estávamos em férias na Bretanha e que pretendíamos conhecer a Côte de Granit Rose eles retrucaram na hora: prá què? Aquelas pedras nem são mais rosas; agora já estão marrons. Não vale a pena ir até lá.


     Falei em voz alta no carro: gente, será que os velhinhos de Dinard tinham razão? Cadê as pedras rosas? Só vejo pedras marrons. Será que é propaganda enganosa e que esta costa não é rosa? Confesso que a primeira vista fiquei um pouco desapontada, pois em minha imaginação as pedras eram "pink" e de longe eu não via nada semelhante a cor de rosa.


     Mesmo assim descemos do carro e  fomos caminhando direto para a praia mas assim que colocamos o pé na areia desabou aquele aguaceiro e tivemos que voltar correndo para nos proteger sob a marquise de uma loja próxima. Decidimos então que era melhor irmos almoçar com calma para dar tempo da chuva parar, e foi o que fizemos.

     Muitos restaurantes estavam fechados, afinal por aqui já é baixa estação, mas o Restaurante Le Ker Louis estava aberto então fomos para lá e não nos arrependemos, pois a comida estava deliciosa. Eu e a Maura tomamos uma sopa de frutos de mar como entrada que estava divina. O sabor explodia na boca, despertando as papilas e aguçando o paladar. Tomei até a última gota da minha cumbuca. O prato principal foi um cabillaud (espécie de peixe) com legumes muito bom também. A Helena, o Lionel e o David pediram pavê d'agneau (a pronúncia é anhô) que é carne de cordeiro com um sabor peculiar por causa da alimentação do animal que é a base gramínias que germinam em pasto pré-salé, isto é, pastos ricos em sal e iodo porque são banhados pela maré alta.



 


Para sobremesa pedi uma pera ao vinho tinto (ou pera bêbada, como chamam os portugueses) só para comparar com a que minha irmã faz e posso garantir, sem medo de errar, que a da Suzi ganha disparado. É muito mais gostosa. O restante do grupo aprovou a tarte tatin sem restrições. O melhor de tudo isto foi o preço: apenas 100 euros para cinco pessoas.


     Nossa estratégia de almoçar primeiro deu certo e quando saímos do restaurante a chuva já havia cessado. Voltamos caminhando para a praia, mas antes resolvi passar numa loja e comprar um anorak e já saí de lá usando o abrigo que serve tanto para proteger da chuva, quanto do vento e do frio.


     Helena, eu e o David fomos fazer uma caminhada na orla pelos caminhos que aqui eles chamam de promenade. Estávamos embriagadas pela beleza da natureza a nossa volta que nem percebemos quando uma chuva veio rápida do mar e desabou sobre nós. Para minha sorte eu estava estreando meu anorak novo e não senti uma gota sequer umedecer meu corpo. Adorei meu casaco novo.


     Nos abrigamos atrás de uma grande moita de arbustos que crescia ao longo da promenade aguardando a chuva passar. Não demorou muito a chuva parou e o sol deu as caras como se nada tivesse acontecido, então voltamos a nossa caminhada fotografando tudo e guardando em nossas memórias as belezas da Costa de Granito Rosa.


     Fomos até o farol, todo construído em granito rosa. A vista lá de cima era soberba. Linda demais! A chuva ia e voltava o tempo todo. O tempo estava bem impróprio para uma caminhada descontraída pela praia, mas assim mesmo continuamos nosso passeio e não nos arrependemos.

será que foi a erosão que esculpiu o elefante nesta pedra?


Oratório de Saint Guirec
(monge galês que ali aportou para fundar uma comunidade)

     Passamos o dia na praia em Ploumanac'h (pronuncia-se plúmanaque) e curtimos cada momento de nosso passeio.
     E para quem gosta de cultura inútil, como é o meu caso, poul significa pântano e Poul-Manac'h significa o pântano do monge. A topografia da região, por ser alagadiça, justifica o nome da cidade: Ploumanac'h.

Impressões da Abadia do Monte Saint Michel (texto da Helena)

     Ao olhar pela janela vi o mundo todo branco. Uma névoa densa nos envolvia por completo. Senti como se estivesse nas nuvens. Não via sequer a silhueta das árvores aqui em frente e o casario encontrava-se totalmente submerso na brancura imaculada desta manhã de outono. Um outono gélido, com chuvas esparsas e um vento penetrante.
   A previsão do tempo era clara neste sentido. Senti uma ponta de preocupação invadir-me. Fiquei inquieta e apreensiva pelo passeio que havíamos marcado: Mont Saint Michel as 11 h. Nada podia ser feito. O jeito era esperar e demos sorte. Quando o David chegou a névoa já tinha se dissipado, só o frio continuava. Um vento cortante penetrava sem cerimônia as frinchas dos casacos, dos sapatos, dos cachecóis... as bochechas queimavam e o nariz entupia, mas fomos assim mesmo. No meio do caminho o sol surgiu glorioso por entre as nuvens. Nosso dia estava salvo.


    Chegamos ao Mont Saint Michel antes do meio dia. Deixamos o carro no estacionamento e pegamos um ônibus que tem duas cabines. Ele não faz a volta ao chegar ao sopé do monte. O motorista troca de cabine e retorna. Do ponto final para adiante seguimos a pé. A ruazinha é estreita, cheia de lojinhas e restaurantes. Quando chegamos ainda estava vazia, mas ao voltarmos já parecia um formigueiro humano, uns indo... outros vindo... Pessoas de todo canto, todos os rostos, todas as línguas, uma verdadeira Babel, fez-me lembrar um quebra cabeça que a Lourdinha tem na sua sala. O David disse que estava tranquilo. Nos meses de alta temporada é bem pior, mal dá para circular.

    A subida é íngreme, mas há paradas com mirantes para se observar a paisagem, que é deslumbrante, e dar uma descansadinha. Há, também, muitas escadas. A Maura contou cerca de 400 degraus. Essa parte, para mim, foi a pior. Não enxergo bem e tive muito medo de cair, mas o Lionel e o David foram super gentis e me auxiliaram, principalmente na decida. Lourinha bateu uma foto quando os dois me amparavam e disse que era "Dona Flor e Seus Dois Maridos". Começamos a rir. David não entendeu nada, tivemos que explicar que era um livro de um escritos brasileiro, "Madame Fleur ét ses Deux Maris". Foi um momento de descontração.


     Há uma escada em caracol, dentro do monastério, que foi uma tortura para mim, mas consegui fazer todo o percurso. Valeu a pena.




     A construção é belíssima, arcadas góticas, colunas com chapitot, vitrais, lareiras enormes e, para completar, um claustro, com um jardim  magnífico. Os outros salões eram escuros, os vitrais pequenos filtravam pouca luz e  o tom amarelado da iluminação indireta, colocada estratégicamente, dava um ar fantasmagórico ao local, mas muito apropriado, vez que se assemelha à luz de velas, que era usual naquela época.




     No refeitório perto da capela havia uma mesa posta com frutas, verduras  e legumes, com cartazes que explicavam o uso desses alimentos pelos nobres e plebeus na idade média. Interessante que, segundo eles, os nobres só comiam  o que nascia acima do solo. Eles entendiam que tudo o que estava debaixo da terra, como as raízes e os tubérculos não eram nutritivos, deixando-os para os plebeus. As frutas eram pouco consumidas. Isso demonstra o quanto era pobre a alimentação na idade média. Podemos dizer que se alimentavam basicamente de proteína e carboidrato.  Cheguei à conclusão que somos uns felizardos.



  Quando saímos o sol estava na linha do horizonte. As águas cintilavam, proporcionando-nos um espetáculo visual de indescritível beleza. Foi um dia perfeito.