Uma experiência difícil

             - Aguarde sentada naquele banco que vou buscar um funcionário que fale português para conversar com sua amiga.
            Maria e Fátima tinham acabado de chegar ao aeroporto de Heathrow em Londres e foram juntas para o guichê de imigração. Maria que tinha vários carimbos no passaporte e Visto dos EUA não teve nenhum problema e foi admitida para permanência de seis meses na cidade, mas o guarda da imigração resolveu criar caso com Fátima porque o passaporte dela não tinha nenhum carimbo e ela estava chegando à cidade para estudar por seis meses e não falava uma palavra sequer em inglês.
            A conversa não acabava mais e de longe Maria só conseguia ver a amiga gesticular e responder a várias perguntas, não dava para deduzir e muito menos escutar o que eles tanto falavam. Ela já estava ficando aflita, com medo de Fátima ser deportada, quando finalmente a imigração resolveu carimbar o passaporte. Mais do que depressa as duas pegaram as malas na esteira e quando finalmente alcançaram o saguão encontraram outro problema: o amigo que ficou de buscá-las no aeroporto não estava aguardando no local combinado.
            Elas estavam cansadas da longa viagem e bastante estressadas com o episódio na imigração. Tentaram falar pelo celular, mas a ligação caía na caixa postal. Por onde andaria Vitor? Resolveram sentar e aguardar um pouco mais.
            O tempo passava e nada de Vitor chegar. As duas já estavam na fila do taxi quando ouviram uma voz conhecida gritando seus nomes, era o Vitor que vinha correndo ao encontro delas. Ele sorria enquanto se desculpava pelo atraso. Os três se abraçaram e saíram juntos do aeroporto. Optaram pelo metrô, já que iriam descer em Piccadilly Circus, onde ele trabalhava.
            A viagem até o centro de Londres foi longa, quase uma hora no metrô lotado. Quando chegaram na estação de Piccadilly desembarcaram e para desespero dos três só havia uma escada que levava para a saída. O jeito foi respirar fundo e arrastar as pesadas malas escada acima. Quando finalmente alcançaram a rua uma rajada de vento gelado os recebeu, mas mesmo assim foi um alívio sentir que finalmente haviam chegado ao destino.
            Foram direto para o hotel que ficava quase em frente a saída do metrô e onde passariam a noite. Estavam exaustas pela viagem longa e pelo estresse na imigração. Só queriam descansar para apagar da memória as lembranças ruins da chegada à cidade. No dia seguinte sairiam com calma para conhecer Londres.
            O domingo amanheceu frio, nem parecia verão. Foi preciso usar botas, um agasalho e cachecol quentinho para se proteger do frio que parecia querer congelar até os ossos. – É assim o verão na Europa? Fátima perguntou assustada, já que detestava invernos gelados. Vitor sorriu e disse que em Londres o tempo era meio doido. Era muito comum a cidade exibir todas as estações do ano num mesmo dia.
            Como estavam em Piccadilly foram caminhando a pé até o Palácio de Buckingham, primeiro ponto turístico que resolveram conhecer. A longa avenida de acesso ao palácio era ornamentada com árvores antigas e frondosas que deixavam uma sombra gelada e escura desenhada no chão. Fátima levantou a gola do casaco para ver se esquentava um pouco mais. Ela andava encolhida, de cabeça baixa e com as mãos protegidas no bolso do casaco. Sentia tanto frio que nem conseguiu reparar direito nos canteiros em frente ao palácio que ainda exibiam flores coloridas. Uma multidão de turistas aguardava em frente aos portões altos.
            Assistiram a troca da guarda e em seguida foram conhecer o Parlamento e o famoso Big Ben. Fátima estava impressionada com tudo o que via, era sua primeira viagem a Europa. A única coisa que tirava um pouco do prazer no passeio era o vento frio que não parava de soprar. O Palácio de Westminster ou Casas do Parlamento, que abriga a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns, fica numa das margens do Rio Tamisa.
            Assim que viu o prédio do Parlamento Fátima exclamou excitada: - a arquitetura da fachada é gótica! Aprendi isto em minha aula de decoração, mas é a primeira vez que vejo um prédio assim. – É lindo!
 O famoso relógio Big Ben fica numa das torres que mede 96 metros e é conhecida como Torre do Relógio. Depois do almoço as amigas resolveram voltar para o hotel e não saíram mais. No dia seguinte precisavam sair para conhecer a escola onde iriam estudar e iriam também para a casa da família que iria hospedá-las durante o período que ficariam na cidade.
            Na segunda-feira foram conhecer primeiro a casa onde iriam morar e levaram o maior susto. A dona da casa informou que havia cancelado a reserva da hospedagem e que a escola sabia do cancelamento. Maria e Fátima ficaram assustadas, pois a escola não havia informado nada sobre o cancelamento da hospedagem. Ainda bem que Vitor estava com elas e pode acompanhá-las até a escola para tentar resolver o problema.
            A escola ofereceu outra opção de hospedagem e lá se foram os três para o novo endereço, mas outro problema os aguardava: o dono da casa estava furioso porque um aluno da escola havia quebrado algumas coisas em sua casa e saído sem pagar pelo prejuízo. Ele chacoalhava um chaveiro com as chaves da casa enquanto conversava com Vitor e dizia que só receberia as duas novas alunas se elas pagassem adiantado a quantia de cento e cinquenta libras para cobrir os prejuízos causados pelo outro estudante.
            Maria e Fátima se recusaram a pagar pelo prejuízo e voltaram desoladas para o hotel onde estavam hospedadas. Já era muito tarde, estavam cansadas e furiosas com a escola, pois pagaram adiantado um mês de hospedagem quando fizeram a matrícula, antes de saírem de suas casas, e agora estavam sem lugar para morar em Londres e não podiam ficar muito tempo pagando pela diária do hotel. Elas precisavam encontrar um lugar para morar, pois estavam se sentindo como duas sem teto em Londres. Parecia que tudo estava dando errado para as amigas, desde a chegada ao aeroporto. Era melhor dormir e esfriar a cabeça.
            Vitor trabalhava no hotel onde Maria e Fátima estavam hospedadas, e então conversou com sua gerente para saber se era possível elas ficarem morando no mesmo alojamento dos funcionários do hotel que ainda tinha alguns quartos disponíveis. Ele explicou a situação das amigas e a gerente, sensível ao problema, resolveu alugar um dos quartos. Ela também sugeriu que ambas tentassem uma vaga para trabalhar meio período no restaurante do hotel, já que eram estudantes e podiam trabalhar legalmente.
            Não podia ter acontecido nada melhor. Os ventos pareciam estar começando a soprar em favor das amigas que além de conseguirem um quarto para morar no centro de Londres, ainda podiam trabalhar pela manhã e estudar no período da tarde. Era um arranjo perfeito. Elas pegaram suas malas e fizeram a mudança para o alojamento no mesmo dia, e em seguida foram até a escola cobrar de volta o pagamento referente a um mês de hospedagem em casa de família.
            A primeira semana chegou ao fim e Fátima não parecia nada feliz. Ela trabalhava no hotel pela manhã e frequentava a escola de inglês na parte da tarde. Chegava em casa abatida comentando as histórias de vida que ouvia dos colegas que frequentavam a mesma escola. Eram histórias de pessoas pobres que foram morar em Londres e que viviam no maior sufoco. Eles precisavam estudar para manter o visto de estudantes e assim poder continuar trabalhando legalmente, moravam em bairros distantes do centro e trabalhavam muito para se manter e também poder mandar dinheiro para as famílias. Era uma vida muito dura e difícil.
            Fátima não conseguia se adaptar e sentia muita falta de sua casa e sua família que havia ficado para trás. Além da dificuldade com a língua, o que atrapalhava a comunicação no trabalho, o frio, em pleno verão, piorava ainda mais as coisas. Ela só queria dormir e se recusava sair para conhecer a cidade. Saía da cama apenas para trabalhar e ir para o curso de inglês. Na metade da segunda semana ela decidiu que não iria mais ficar, queria voltar para casa. Pediu ajuda a Vitor e foram marcar a passagem de volta. No final da segunda semana Fátima embarcou de volta para casa sem ter conhecido Londres.
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Cadê meu prontuário da radioterapia que fiz no Hospital Santa Lúcia em 1998?

     Meu último PET evidenciou um aumento de 150% na atividade metabólica do tumor no esterno, em apenas 4 meses. Como osso é pouco vascularizado e o tumor no esterno não está respondendo muito bem a quimioterapia que venho fazendo, meu oncologista me encaminhou para o Hospital Santa Lúcia para fazer radioterapia.
     Gostei muito do Dr. André, médico radioterapeuta que me atendeu. Ele disse que preciso fazer 10 sessões, mas para isto é necessário que o hospital localize o prontuário da primeira radioterapia que fiz em 1998, quando fiz a quadrantectomia por causa de um câncer de mama primário.
     Até aí tudo bem, mas pasmem:  minha consulta foi no dia 18 de junho e até hoje o hospital não encontrou meu prontuário antigo. Na última segunda-feira liguei para saber notícias sobre meu tratamento e a pessoa que me atendeu informou que até então a empresa contratada para guardar os prontuários antigos não tinha conseguido localizar o meu prontuário, e que por isto eu não poderia iniciar o tratamento.
     Ontem ligaram do hospital informando que o prontuário ainda não foi localizado, mas pediram que eu fosse hoje às 14h fazer a tomografia, para ir adiantando os procedimentos para iniciar a rádio.
     Acho um absurdo e um descaso sem tamanho que um paciente oncológico, de um hospital privado, tenha um tratamento adiado por falta de organização e controle na guarda de prontuários antigos. Isto é uma vergonha, uma falta de respeito com os pacientes que confiaram seus tratamentos a um determinado hospital. 
     O tumor no esterno, enquanto aguardo que alguém de boa vontade encontre o meu prontuário, continua fazendo a festa e se multiplicando feito um doido. Queria que este tumor sumisse do meu esterno e passasse a crescer no peito de algum daqueles irresponsáveis que enfiaram meu prontuário sabe-se lá onde,  para ver como é desesperador ficar aguardando e dependendo disto para iniciar um tratamento. É horrível conviver com um monstro alienígena corroendo você por dentro e você simplesmente não tem o que fazer e ainda por cima precisar contar com a boa vontade de outras pessoas.


Graduação de uma Chef que já sabia cozinhar

          Ainda me lembro como se fosse ontem: ela nasceu chorando forte e foi uma criança sapeca, que não parava quieta um minuto sequer. Não podia ver uma porta aberta que escapava correndo para a casa do outro lado da rua onde era sempre recebida com carinho pela D. Neusa, uma vizinha que a chamava de “Pinguinho do I” porque era muito magrinha e miúda.
            Aprontava tantas que volta e meia machucava feio. Uma vez levou um tombo na rua e caiu de cara no chão. O queixo magrinho bateu na quina da calçada fez um rombo feio e um pedacinho da carne caiu no paralelepípedo encharcado pelo sangue rubro que saía do corte. A pequena pegou o pedacinho de seu queixo e berrando a pleno pulmões entrou correndo em casa espalhando gotas de sangue pelo chão. Foi levada para o hospital e levou alguns pontos que deixaram uma cicatriz que ela carrega até hoje.
            De outra feita ela subiu na mureta da varanda da casa vizinha e caiu estatelada no chão quase arrancando um pedaço da língua que ficou presa apenas por uma pele fininha. Foi outro berreiro, sangue escorrendo e outra visita ao hospital. A pequena levou um monte de pontos na língua, mas nem assim deixou de aprontar suas artes.
            Ficou órfã de pai aos 7 anos e como era muito fujona sua mãe a carregava para o trabalho, no colégio das freiras. A Irmã Geralda, uma freira boazinha e carinhosa que trabalhava na cozinha, mandou fazer dois aventais xadrezinhos para a pequena e a colocava para ajudá-la na cozinha e assim dar sossego para a mãe trabalhar em paz. Sua primeira tarefa na grande cozinha foi catar arroz e feijão, mas em pouco tempo a menina estava ajudando a Irmã Geralda fazer biscoitinhos caseiros. Foi assim que a garotinha levada tomou gosto pela culinária, seus cheiros, sua alquimia. Ela adorava fazer coisinhas e se divertia em cima de um banquinho para alcançar o enorme fogão e mexer as panelas que ferviam com comidas cheirosas e muito gostosas.
          Naquela ocasião a menina começou a ter um sonho recorrente: ela sonhava com uma cozinheira negra, muito gorda, mexendo uma enorme panela que fervia no fogo. Ela tinha a sensação de que aquela mulher era ela mesma, embora não entendesse como podia ser criança e se enxergar numa mulher velha e gorda. A imagem daquela cozinheira que aparecia em seus sonhos mexendo a panela a perseguiu muito de perto, durante boa parte de sua infância.
          O tempo passava e a cada dia a menina tomava mais gosto pela culinária e sentia um prazer enorme em experimentar receitas e revelar sabores. Ela cresceu e todos que a conheciam de perto experimentavam seus pratos deliciosos e muitos a incentivavam explorar aquele dom de extrair sabores sutis, que enchiam a língua e despertavam o paladar dos amigos.
          Anos se passaram, mas só agora aquela garotinha levada da breca, que começou ajudando a catar arroz e feijão na cozinha de um colégio de freiras no interior de Minas Gerais, conseguiu se formar em gastronomia pelo IESB de Brasíla. Ela precisou primeiro vencer seus medos, enfrentar seus fantasmas, lutar contra a insegurança e a baixa autoestima para ter coragem de se inscrever no vestibular. Ela demorou, mas finalmente conseguiu acreditar que era capaz de realizar qualquer sonho pessoal e acabou de se graduar.

Erasmo - Suzi - Andre - Aline
(Grupo do Degust 2013 do IESB)

          Parabéns Suzi, estou muito orgulhosa de você minha irmã. Tenho certeza absoluta que tanto eu quanto todas as pessoas que convivem ao seu lado e admiram a pessoa generosa e talentosa que você é torcem pelo seu sucesso como chef.  Aliás, quem a conhece e já teve a oportunidade de provar seu tempero especial  sabe que você é uma grande chef há muito tempo, que agora conquistou o título. A faculdade serviu apenas para aprimorar seu dom e o seu talento.

As bodas de Dolores

            - Só porque sou morena cor de canela e tenho os cabelos negros e cacheados não posso ser freira?
            - É, passou de branco é preto, e mulher preta não pode ser freira nesta Congregação.
            Esse diálogo carregado de preconceito seria motivo de processo nos dias de hoje, mas nos idos dos anos cinquenta era perfeitamente normal. Alguém com mais de sessenta anos tem lembrança de ter conhecido na juventude alguma freira negra? Duvido.
            E a jovem morena cor de canela perdeu a ilusão de que algum dia iria passar pelo ritual dos votos perpétuos para se tornar freira e esposa de Cristo. Apesar de a congregação tê-la rejeitado para ser freira ela continuou morando e trabalhando no convento, pois já vivia lá há muitos anos e aquela era a única vida que conhecia.
            Numa bela manhã de sol Dolores carregava de volta para a cozinha do convento uma bandeja com delicadas xícaras de porcelana e um bule com um pouco de café negro e cheiroso. Uma freira já avançada em idade se aproximou e com voz forte e decidida disse-lhe de sopetão: - O Sr. Heitor, que trabalha em nosso colégio, é viúvo e quer se casar com você.
            Dolores levou tanto susto com a notícia que deixou cair a bandeja espalhando cacos de louça e café pelo chão. Olhou surpresa para a freira que continuava em pé na sua frente e disse quase num sussurro: - mas ele é um velho. Não quero me casar com um homem velho e que eu mal conheço. Eu nunca sequer conversei com o Sr. Heitor, como é que ele quer se casar comigo?
            A freira retrucou encerrando o assunto: - O Sr. Heitor é um homem bom, sério, é viúvo e quer se casar com você. Não seja tola. Aproveite a chance de ter um marido que cuidará de você, lhe dará uma casa e filhos. – Eu nem quero ter filhos. Sempre quis ser esposa de Cristo, e nunca pensei em me casar, ainda mais com um homem velho...
            A pressão para que Dolores aceitasse o pedido de casamento foi enorme. Todo dia era a mesma ladainha: você precisa aceitar o pedido de casamento. Não houve paquera e muito menos namoro. Dolores não teve escolha e poucas semanas depois dessa conversa ela e Heitor embarcaram de ônibus para São Paulo e lá pegaram outro ônibus para uma cidadezinha no interior do estado. Era lá que o pai e os irmãos de Dolores moravam, e era lá aonde eles iriam se casar. Mal trocaram algumas poucas palavras durante o trajeto da viagem que começara no Rio de Janeiro, o coração dela estava muito apertado. Dolores sentia medo do futuro que haviam escolhido para ela.
            A família aguardava o casal na pracinha da cidade. Havia um misto de curiosidade e surpresa com a chegada dos noivos, pois ninguém acreditava que Dolores iria se casar algum dia.  Desde que ela fora embora para o Rio de Janeiro seu desejo era o de se tornar freira, e ser esposa de Cristo.
            Heitor era um homem alto e bonito. Sua pele bronzeada pelo sol tropical destacava os olhos verdes num rosto de traços fortes e marcantes. Ele não aparentava ter quase 60 anos.  Diferente de Dolores, estava tão feliz com as bodas que até mandou preparar na padaria da cidade um bolo enfeitado com uma pombinha branca para recepcionar os amigos e familares da noiva. Como religiosa que era, Dolores escolheu o mês de maio, mês de Maria, para se casar e entrou caminhando séria e solene pela nave da pequena Igreja do interior. Ela não estava feliz dentro do vestido de noiva simples e elegante, estava assustada e deprimida. O casamento não fazia parte dos seus planos de vida, mas a pressão havia sido tão grande que ela acabou por concordar em se casar com um homem velho que tinha idade para ser seu pai.
            Heitor a aguardava sorridente no altar, ele usava um terno preto com finas listras brancas que o fazia parecer ainda mais alto do que era realmente. A cerimônia foi breve e no dia seguinte o casal tomou o ônibus de volta ao Rio de Janeiro. Em março do ano seguinte nasceu a primeira filha do casal.
            Eles tiveram três filhas e foram felizes juntos, apesar da diferença de idade. Pouco depois de completarem onze anos de casados Dolores ficou viúva e precisou criar suas filhas sozinha e com muitas dificuldades, como ela havia previsto desde o momento em que disse o SIM no altar, na cerimônia do seu casamento.
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O grito dos brasileiros

          A corja de parlamentares corruptos que ocupa o nosso Congresso e a turma do PT não contavam com a revolta do povo. Eles estavam muito seguros de que com um pouco mais de circo e futebol iriam calar a população brasileira mais uma vez. Estavam enganados. Desta vez o jogo deles não deu certo e o grito de revolta que estava preso na garganta dos jovens explodiu por todo o Brasil e está ganhando mais adeptos a cada dia.
           O brasileiro pacífico cansou de ser o espectador silencioso da roubalheira generalizada perpetrada por políticos desonestos e corruptos, dos desmandos dos parlamentares com ficha suja que ocupam posições de destaque no Congresso, das regalias absurdas em que estes mesmos parlamentares se esbaldam sem pudor.
O brasileiro pacífico cansou de implorar por salários justos, boas escolas, hospitais equipados, médicos comprometidos, professores bem remunerados, segurança, dignidade. O brasileiro pacífico cansou de pagar impostos extorsivos sem contrapartida nenhuma. O brasileiro pacífico chegou ao seu limite de tolerância e não quer mais ser omisso.
       Os protestos tiveram início com o anúncio do aumento nas tarifas cobradas pelo transporte público precário e de péssima qualidade, e evoluíram para outras reivindicações necessárias e legítimas.
          A população esclarecida, aquela que não se contenta com o pão e o circo que o governo petista oferece, aquela que é contrária ao bolsa família e outros benefícios que servem apenas para manter a população pobre cada vez mais dependente do governo, está nas ruas exigindo o fim das políticas equivocadas, o fim da corrupção, o fim da impunidade, o fim da violência e a aplicação justa e correta do dinheiro público, dinheiro que vem dos nossos impostos.
           O grito do povo nas ruas não é apenas por causa do aumento de 0,20 centavos no valor das passagens dos transportes públicos velhos e sucateados. O povo brasileiro quer ser ouvido, quer ser respeitado, quer ter dignidade. O povo brasileiro não aceita mais esta democracia de araque, de faz de conta. O povo quer a democracia plena.
Não estamos interessados em estádios espetaculares enquanto faltam hospitais equipados em todo o país. Não estamos interessados em ganhar a Copa do Mundo enquanto faltam escolas e professores preparados e bem remunerados em todo o Brasil. Nada disto pode ser prioritário se nos falta segurança e se a violência retira de todos nós o direito de sair despreocupados pelas ruas. Aliás, do jeito que as coisas estão não nos sentimos seguros nem mesmo dentro de nossas casas ou nos locais de nossos trabalhos.
Senhores políticos eleitos “democraticamente” pelo povo estamos protestando nas ruas para exigir também a rejeição da ridícula e absurda proposta da “cura gay” que serve apenas para evidenciar o preconceito contra minorias, estamos exigindo a rejeição da PEC 37 que limita a atuação do Ministério Público nas investigações criminais. A população esclarecida exige que a independência do Ministério Público seja garantida. Estamos exigindo uma política comprometida com o social, com o povo. Não aceitamos mais corrupção, impunidade, violência e todas as mazelas que comprometem o real desenvolvimento do nosso país.
         Nossas reivindicações são legítimas, queremos ser ouvidos. Cuidado com as próximas eleições, e não se esqueçam de que, de acordo com nossa Constituição “O PODER EMANA DO POVO” e não o contrário.

Radioterapia para tratar tumor resistente no esterno

     Hoje fui ao Hospital Santa Lúcia para a consulta com o Dr. André Rêgo, o médico que irá definir a radioterapia que irei fazer para acabar de vez com o tumor no esterno que está resistente a quimioterapia. Ele me explicou que o tumor ósseo costuma não responder tão bem a quimioterapia. Tanto é verdade que estou livre de quase todas as metástases que já apareceram pelo meu corpo, mas as metástases ósseas continuam atrapalhando minha vida. A pior delas é no esterno, pois incomoda bastante.
     Gostei do Dr. André. Ele é aquele tipo de médico que passa segurança ao paciente e a certeza de que sabe muito bem o que está fazendo. Ele olha o paciente nos olhos e não tem pressa em acabar logo com a consulta. Gostei. Acho que estou nas mãos da pessoa certa para cuidar do meu caso.
     Em nossa conversa eu disse que não tinha boas recordações da radioterapia que precisei fazer em 1998, quando tive o câncer primário de mama e precisei fazer uma quadrantectomia. Ele me tranquilizou dizendo que as novas máquinas nem de longe lembram aquelas que usei da primeira vez e que hoje os efeitos colaterais, quando acontecem, são mínimos. Bom saber disto.
     Vou precisar de 10 aplicações de radioterapia no esterno e como elas são diárias, de segunda a sexta-feira, em duas semanas estarei livre do tratamento e do tumor resistente. 
     Agora vou precisar fazer a tomografia de tórax para fazer as marcações no local certo. Acho que o início do tratamento será apenas na primeira semana de julho. O bom disto tudo é saber que em outubro poderei viajar tranquila e curtir minhas merecidas férias. Já estou em contagem regressiva. Fazer radioterapia neste intervalo será apenas um detalhe.






Preparando mais uma pausa para viajar

     Hoje tive consulta com meu oncologista, Dr. Fernando Maluf. Como eu esperava, de acordo com o resultado do PET, o dr. Fernando achou que  o câncer está respondendo bem ao tratamento, com exceção de um dos tumores no esterno. Ele optou em manter a quimioterapia que venho fazendo, mas acrescentou a radioterapia para atacar especificamente este tumor resistente no esterno. 
     Meu estado geral é bom e o exame de sangue com os marcadores tumorais está ótimo. Acredito que a radioterapia irá resolver o problema. O que realmente quero é ficar bem e levar uma vida o mais próxima do normal possível. 
     Aproveitei para falar com meu médico que vou sair de férias em outubro. Tenho mais de três meses pela frente para me preparar para a viagem. Ele concordou que o passeio é uma boa idéia, pois para mim viajar é muito terapêutico e funciona melhor do que qualquer quimioterapia.      
    Gosto de planejar minhas viagens com bastante antecedência e com o aval do meu médico, é lógico. Juntos criamos estratégias para que eu possa aproveitar as férias sem prejudicar meu tratamento. Meu lema é o seguinte: Eu me trato para viver e não vivo apenas para me tratar. A vida fica muito sem graça quando não nos damos o direito de fazer algo prazeroso.
     Costumo viajar nos intervalos das quimioterapias. Posso até atrasar um pouco a aplicação de uma das quimioterapias, mas não o bastante para comprometer o tratamento. De qualquer forma carrego comigo a quimioterapia oral que já dá um suporte importante. Levo também um relatório do meu oncologista e todas as receitas dos remédios que uso regularmente.
     Para me resguardar também levo na bagagem um antibiótico para uma emergência, e remédios que possam ser necessários para dor ou uma gripe. Em resumo, levo uma farmácia de emergência comigo, além do seguro médico, é claro, pois não viajo sem isto. Aliás, ninguém deveria viajar sem um bom seguro de saúde.
     Também costumo visitar meu angiologista antes de viajar para me prevenir contra o risco de uma trombose durante vôos de longa duração. Além de usar meias de compressão uso um remédio antes e durante a viagem. Durante o vôo costumo levantar algumas vezes para exercitar as pernas e bebo muita água para evitar desidratar. São pequenos cuidados que podem evitar problemas mais sérios.
     Minha próxima aventura pelo mundo será na Bretanha, no oeste da França, terra de muitas lendas e histórias.