Descoberta da doença

Quando iniciamos esta importante aventura que se chama vida não podemos vislumbrar as alegrias e as tristezas que um dia farão parte de nossa trajetória.
Definições, rótulos e preconceitos geralmente acompanham o surgimento de patologias físicas ou mentais que podem acometer as pessoas, acasionando-lhes alguns desequilíbrios transitórios.
Vou compartilhar com vocês minhas reflexões como paciente de câncer. Espero fazê-lo com leveza e coragem...

Descoberta da doença

Foi em julho de 1998, na véspera de uma viagem de férias, que descobri um enorme caroço na mama direita. Resolvi ignorar o achado e curtir a viagem com minha filha, então com 11 anos, minha prima e o marido dela. Foi a melhor coisa que fiz. Curtimos as belezas naturais de Minas Gerais onde visitamos Poços de Caldas e Araxá, terra de dona Beja. Retornei das férias renovada e pronta para enfrentar com coragem uma consulta ao mastologista.
A primeira consulta foi tranquila: o médico examinou o nódulo e disse que parecia ser apenas um simples cisto, mas pediu alguns exames complementares. Fiz primeiro a ecografia mamária. Já na sala de exames percebi que era algo mais sério, pois o médico ficou preocupado com o que viu na tela e me pediu para fazer, imediatamente, uma mamografia. Fiz o exame e lá estava o câncer escondido atrás de um simples e inofensivo cisto. Em seguida vieram as punções, biópsias e todos aqueles exames indispensáveis.
Voltei ao médico com os exames. Ele olhou tudo, confirmou o diagnóstico do câncer e marcou a cirurgia. Confesso que não foi uma conversa fácil, mas decidi que não queria morrer. Minha filha tinha somente 11 anos, o pai já havia morrido, e eu não queria que ela ficasse também sem mãe. Decidi ir em frente, não tinha nada a perder. Aliás, muito pelo contrário, eu só teria a ganhar se vencesse a batalha contra a doença.
Fiz a cirurgia para a retirada de um quadrante da mama direita. Não foi uma cirurgia traumatizante. Um mês depois comecei o tratamento com radioterapia. Durante 30 dias eu tive que ir todos os dias ao hospital. Aguardava na sala de espera ouvindo as histórias mais escabrosas, depois entrava naquela sala cheia de sinais de perigo e coisas do gênero e recebia a radiação. Na hora eu não sentia nada, mas com o tempo os efeitos da radiação se manifestaram: eram enjôos, mal estares e queimaduras radiológicas. Não foi fácil. Terminei a série e ainda tive que fazer um reforço de rádio. Em seguida veio a quimioterapia. Coisa difícil... A cada 21 dias eu recebia a quimioterapia na veia. Vieram os enjôos e todas aquelas coisas que envolvem o tratamento. Ficava difícil comer, as dores incomodavam... Resolvi fazer então o jogo do contente. Aquele jogo da Polyana, a menina do livro que li quando era criança. Ao invés de pensar em quantas sessões eu ainda teria que me submeter eu contava quantas já tinham acabado. A cada sessão que eu fazia eu sabia que era menos uma para acabar o ciclo. Finalmente cheguei ao fim do tratamento. Eu estava feliz porque iria retornar a minha vida normal. Eu só não poderia imaginar que uma desagradável surpresa me aguardava na primeira consulta após o final do tratamento. Queixei de uma dificuldade para engolir e minha médica percebeu que havia um enorme nódulo na minha tireóide. Fiquei arrasada.
Fiz a cirurgia. Felizmente tive a sorte de cair nas mãos de um médico fantástico e superei mais um problema.
Passados mais 6 meses lá estava eu de volta aos exames de rotina e para minha surpresa, desagradável, diga-se de passagem, foi encontrado outro nódulo na mesma mama que havia sido operada.
Lembro bem que chorei, xinguei todo o repertório de palavrões conhecidos, fiquei muito brava. Eu não queria acreditar que estava acontecendo tudo de novo. Minha médica esperou minha fúria acalmar para dizer que eu teria que passar por outra cirurgia para retirada do nódulo e talvez toda a mama. Ela me sugeriu pensar no assunto para decidir o que fazer.
Pensei, pensei muito e conclui que o melhor a fazer seria uma mastectomia radical para me livrar de vez do problema. Eu perderia uma mama, mas em compensação me livraria definitivamente de uma doença que já estava tirando meu sossego.
É claro que a essa altura eu já estava com acompanhamento psicológico, afinal, eu que sempre levara uma vida ativa, trabalhando fora e correndo de um lado para o outro estava a quase dois anos dependendo de alguém para me levar ao médico, ao hospital, a fisioterapia... Eu estava completamente dependente.
Fui novamente operada, dessa vez para retirada da mama. Decidi, no mesmo procedimento cirúrgico, fazer a reconstrução da mama com o músculo da barriga. Foi a melhor coisa que fiz apesar das dores e dificuldades do pós operatório. Acho que psicologicamente, para mim, a retirada da mama funcionou como um instrumento que pos fim ao câncer e a reconstrução da mama permitiu que minha autoestima ficasse intacta.
Três meses depois daquela longa e difícil cirurgia eu estava morando em Londres e aproveitando o que a vida me oferecia de melhor. Resolvi fazer do limão uma limonada. Afinal, entendi que bastava adicionar água e açúcar para fazer o azedo ficar gostoso. Fiz o mesmo com a minha vida.
Não costumo ficar sentada lamentando aquilo que não posso mais fazer. Aprendi que às vezes é preciso nos reconstruir, é preciso reescrever nossa história. Depois de superar uma doença ainda tão estigmatizada consegui renascer das cinzas como uma fênix e sou uma nova mulher. Hoje faço com prazer tudo aquilo que gosto. Entre as várias atividades adoro viajar pelo mundo afora. Viajo sempre e adoro escrever minhas memórias de viagens. São histórias divertidas das viagens com amigos ou minha filha.
Cada um de nós é capaz de encontrar sua própria motivação. Precisamos, em qualquer idade, em qualquer circunstância, manter o entusiasmo pela vida, nos reinventar. Precisamos também compreender que o motivo de nossa felicidade não está fora, mas dentro de cada um de nós; no encontro com nosso Deus interior.

motivadores para superação

Todo ser vivo precisa de motivação para superar obstáculos, vencer dificuldades...
A vida fica muito mais interessante quando buscamos alcançar alguma coisa que nos é importante. Nesses momentos, com motivação, fica menos difícil ir em frente. Cada um encontra seu jeito, o meu é a família, amigos que são parte dessa família e minha filha. Seria muito mais difícil viver sem eles.

Filhos

Vinícius de Morais disse uma vez: Filhos melhor não tê-los, mas se não tê-los como sabê-los?
De fato não é muito fácil ser mãe, afinal carregamos o rebento por nove longos meses em nossa barriguinha já cheia de outras coisas (nem consigo entender com ainda cabe uma criança lá dentro), sentimos enjôo, um calor infernal, as pernas incham, estouram as varizes, um enorme cansaço toma conta da gente e ainda por cima perdemos a forma.
Parece um verdadeiro suplício, mas é bom demais!!! Adorei ficar grávida e curtir minha barriga crescendo devagar. Adorei sentir minha filhinha crescendo, soluçando, chutando, se mexendo... Foi um momento mágico.
Ela nasceu linda (não duvidem, pois não há exagero nessa afirmação), bochechas cor de rosa, lábios carnudos e bem vermelhinhos, mãozinhas e pezinhos tão delicados... Era um pequeno ser frágil, mas que conseguiu encher minha vida de sentido.
Outra coisa que adorei foi amamentar. Era nosso momento de plena comunhão. Eu cantava enquanto ela sugava meu leite quente e nutritivo. Naqueles momentos havia entre nós uma simbiose perfeita. Éramos somente as duas, uma alimentando a outra.
Hoje, alguns anos depois, vejo o quanto este nascimento mudou minha trajetória. Eu não era mais uma pessoa sozinha, livre e independente. Havia uma criaturinha, bem pequena e delicada, que além de encher minha vida de alegria, trazia também muita responsabilidade, muitos compromissos. Eu precisava não só cuidar de seu bem estar como também prepará-la para a vida.
Aos dois anos ela entrou para a escola. Concluiu a 4ª séria com formatura, fotografias e tudo o mais e agora, aos 22 anos, formada em direito, já é advogada. Minha filhinha cresceu, mas continua sendo uma das grandes motivações que tenho para lutar e vencer todos os grandes e pequenos obstáculos que a vida me impõe.
Há alguns anos tive um câncer de mama. Fiz cirurgia, radioterapia e quimio. Quando já estava até esquecendo o assunto eis que o câncer volta em metástases no esterno, pulmão, baço e outros órgãos. Foi um choque, e confesso que minha motivação para enfrentar tudo de novo tem um nome: Bárbara, minha filha querida. Sem ela seria muito mais difícil repetir todo tratamento, vencer todas as batalhas, superar todas as dores...
Seria injusto de minha parte deixar de mencionar outros motivadores para vencer as dificuldades no enfrentamento da doença. São os amigos, a família e os objetivos a serem alcançados. Ah, sem amigos e família fica muito mais difícil. Tudo isso funciona como elixir de boa saúde, mas minha filha, esta é meu melhor remédio. Sua simples lembranças me dá forças, me impulsiona, me faz ter vontade de lutar. Sua presença enche minha vida de alegria. Seu sorriso me aprisiona na vontade de viver um pouco mais e desfrutar sua presença, curtir mais um bate papo descontraído, ver seu crescimento pessoal, profissional e espiritual. É muito bom viajar com ela e descobrirmos juntas uma porção de coisas novas e interessantes. Gosto de sua curiosidade em querer saber tudo que a cerca, de seu interesse por arte e cultura geral. Gosto de vê-la dançar. Gosto de observar a vida pulsando nela.
É por tudo isso que penso: filhos... É muito bom tê-los, conhecê-los, protegê-los e amá-los cada vez mais.

Amizade - Amigos sempre nos surpreendem

Acho que a maioria dos quimioterápicos provoca queda de cabelo. É a grande preocupação das mulheres que precisam se submeter ao tratamento para cura do câncer.
Pelo mundo afora várias mulheres perderam suas madeixas e optaram por comprar um lenço, chapéu ou uma peruca, mas eu duvido que alguma delas passou pela experiência que passei . Vou contar para vocês.
O valor de uma peruca
Você sabe quanto custa uma peruca?
A resposta será, na maioria das vezes, depende. Se for de cabelo natural certamente será mais cara e bonita, caso contrário pode ser até baratinha.
Tenho que concordar que a resposta certa é: depende.
Vou contar o preço da minha peruca. Inestimável! Sabem por quê? Só contando uma história...
Há muito tempo conheci uma garotinha que estudava na mesma escola de minha filha. Era uma linda menina de longos cabelos lisos, castanhos e bem cuidados e olhos muito expressivos e especiais. Eram especiais porque tinham o brilho límpido e iluminado como os olhos de todas as crianças devem ser; expressivos porque diziam muito mesmo que a boquinha estivesse bem fechada, e lindos porque um era castanho claro e o outro castanho escuro emoldurados por longos cílios negros.
Todos os dias quando eu chegava na escola para pegar minha filha essa garotinha vinha receber-me na porta com um sorriso tímido e um olhar que só ela sabia dar. Ela me abraçava e nos entendíamos naquela troca de carinho e amizade. O tempo foi passando, os abraços foram ficando mais demorados, a troca de olhares mais cúmplice... Era o amor crescendo e fortalecendo sem pressa, sem medo de não ser correspondido.
Acabei conhecendo a família daquela menina adorável. Ficamos amigos. Um dia, ela ainda era só uma garotinha quando foi passar um final de semana em minha casa. Esse período foi especial, pois resolvemos plantar algumas flores no jardim. Fiz um lindo canteiro bem em frente da janela do meu quarto. Cada flor que plantamos dei o nome das crianças que estiveram comigo naquela empreitada. Elas adoraram!
Passado mais algum tempo a família daquela garotinha acabou indo morar numa casa bem em frente da minha. Nos tornamos vizinhas.
A vida, como sempre, nos afasta um pouco dos amigos que amamos, mas não consegue diminuir o amor que sentimos, quando essa amizade realmente existe. Foi assim que, apesar de morarmos muito perto uma da outra, não nos víamos com a frequência que gostaríamos...
Nossos encontros eram esporádicos, mas cheios de muito papo e muito carinho. O tempo continuou passando...
Um dia descobri que estava novamente com câncer (já havia passado por outro, anos antes) e que o tratamento seria longo e difícil. A medicação, muito forte, faria meu cabelo cair. Antes mesmo que minhas longas madeixas começassem a cair pela casa enchendo os ralos do banheiro e da pia, deixando sua marca pelo chão decidi cortá-los. Passei máquina zero e antecipei minha careca. Até gostei do resultado. Ficou diferente... As pessoas foram se acostumando a me ver sem cabelo.
Aquela garotinha amiga, agora uma jovem de 20 anos, veio fazer-me uma visita. Conversamos longamente como sempre costumamos fazer quando estamos juntas. Falei-lhe de minhas expectativas, do tratamento e de minha decisão em ficar boa o mais rápido possível. Foram momentos de boas lembranças do passado e esperanças quanto ao futuro. Ela foi embora e eu fiquei rememorando nosso papo.
No sábado seguinte ela e o namorado vieram fazer-me uma visita e trazer-me um presente. Observei que ela havia cortado o longo e bem cuidado cabelo e até fiz um comentário. Ela sorriu aquele sorriso da menina que só ela sabe fazer e entregou-me o presente. Quando abri o pacote encontrei algumas mechas de cabelos castanhos presos por um elástico... Foi uma enooooorme emoção. Não me contive. Chorei comovida diante daquela demonstração inequívoca de amizade e amor incondicional.
Os cabelos da Larissa serão usados numa peruca que será confeccionada para proteger minha careca.
Quanto vale essa peruca??????
Não sei para você, mas para mim o valor estimativo deste gesto de amizade estará sempre a me lembrar de que a vida vale a pena...

música para acalmar...

Faço quimio uma vez por semana e por isso preciso também fazer exame de sangue toda semana.
O Laboratório Sabin tomou uma iniciativa muito interessante: contrataram uma pessoa para tocar violão e cantar para os pacientes que aguardam sua vez de tirar sangue.
Como gosto de música sempre acabo viajando enquanto ouço uma canção que toca mais fundo, então escrevi esse texto para o Noite.

Terça-feira tem violão no Sabin
Toda terça-feira faço exame de sangue para saber se posso ou não fazer quimioterapia na quarta pela manhã. Algumas vezes o laboratório está lotado outras nem tanto assim.
Não costumo pegar senha preferencial para ser atendida mais rápido, pois até gosto de aguardar um pouco mais. Sabem por quê? O Laboratório Sabin contrata o Noite para ficar tocando violão e cantando, como forma de distrair quem aguarda para ser atendido.
Não sei o que pensam as outras pessoas, mas eu adoro. Sento mais perto dele e fico cantando junto enquanto os acordes enchem o ambiente com aquele som gostoso e afinado. O repertório é uma delícia. Ele tira aquelas músicas boas do fundo do baú e solta a voz bem baixinho para não incomodar a platéia.
De vez em quando fecho os olhos e viajo para bem longe nas minhas lembranças... A música continua rolando enquanto as pessoas vão sendo atendidas. Chega minha vez de preencher a papelada e assinar a guia, volto para minha cadeira e continua a curtir o som até que ouço meu nome sendo chamado para colher o sangue.
Dentro da sala de coleta, com a porta fechada, não consigo ouvir a voz do Noite e os acordes do violão. Aproveito para olhar os bichinhos espalhados pela parede, a espadinha pendurada, a maca sempre com um lençol bem branco e limpinho (essa é a sala de coleta para crianças). Puxo conversa com a Marta para descontrair um pouco e pergunto se naquela sala eu também posso chorar como qualquer criança e assim vamos relaxando.
Ela pega meu braço, aperta o garrote, manda que eu abra e feche a mão, avisa que a seringa é descartável e pimba - acerta minha veia de primeira.
Depois de terminada a coleta rimos da situação e ela respira aliviada (é que minhas veias são difíceis). Eu aproveito para tomar uma dose do gostoso capuccino que servem na copa enquanto bato um papinho com a copeira.
Terminado o lanchinho passo pela sala de espera e me despeço dos atendentes do balcão, afinal já se tornaram meus amigos. Dou um adeuzinho para o Noite e saio do laboratório na certeza de que na próxima terça-feira encontrarei todos e novamente poderei curtir um sonzinho gostoso no violão. Idéia genial do Laboratório Sabin.

laboratório (x) veias difíceis

Todos nós, vez ou outra, precisamos ir ao médico. É inevitável acabar indo a um laboratório para fazer exame de sangue. Eu, que faço exame de sangue toda semana, já passei por poucas e boas nos laboratórios até o dia que conheci uma excelente técnica de laboratório que é perfeita para encontrar veias difíceis. Leiam o texto que escrevi para ela e depois me digam se alguma vez o que descrevo já aconteceu com você ou com alguém que você conhece.

Laboratório, agulhas, punções...

Quem nunda precisou entrar num laboratório para retirar sangue não sabe do que vou falar, mas quem já penou bastante na mão de um técnico arrogante saberá muito bem do que se trata.
O médico prescreve e o paciente precisa obedecer. Aí começa o suplício. Isso mesmo, suplício. Você chega ao laboratório, preenche toda aquela papelada e avisa: por favor, minhas veias são um pouco complicadas... A resposta é sempre a mesma: - Não se preocupe, todos aqui são ótimos para puncionar veias.
Sem alternativa você entra naquela salinha minúscula, senta naquela cadeira e olha desconsolado aquele velho suporte para colocar o braço. Chega o técnico e você mais uma vez avisa: minhas veias são difíceis... Ele nem se digna olhar, apenas pega o garrote e quase estrangula seu braço. Em seguida pega aquela maldita seringa, avisa que é descartável e pimba... sapeca a primeira espetada e nada de sangue. Ele gira a agulha para o lado, gira para o outro, você começa a suar e sangue que é bom nada. Aí o técnico olha para sua cara e diz: você está nervosa e sua veia some. Fique calma. - Calma o raio que o parta, Você me fura toda, gira essa maldita agulha em meu braço e ainda me pede calma?
Pensam que acabou o problema? Qual nada. O infeliz retira a agulha do seu braço e começa a espetar em outro lugar, mais outro e outro até chegar na mão onde a pele é mais dura e arde pra caramba. Você nervosa, suando em bicas, mãos geladas... Nessa altura o técnico experiente também já está nervoso e aí dana tudo. Ele não acerta a veia da mão e decide tentar a veia do seu pé. Pense numa pele dura e curtida de sol. Pois é, é a pele do seu lindo pezinho... E dá-lhe mais picada e dor. De repente você suspira aliviado, finalmente o sangue jorra nervoso e escuro para dentro da seringa.
Ele, aquele técnico que se diz muito bom, sai sem ao menos ficar com a cara vermelha de vergonha. Você, suspirando aliviado também sai da salinha e vai fazer um lanchinho para aliviar a fome e a angústia.
Já percebi que todo técnico que se diz muito bom não passa de um embuste. Eles nunca acertam sua veia de primeira e ainda culpam você pelo fracasso. Pode????
Notícia boa precisa ser espalhada. O Laboratório Sabin do Bairro Jardim Botânico de Brasília tem uma menina muito, mas muito boa para pegar uma veia difícil. Ela é um doce de criatura: voz meiga, mãos suaves e firmes ao mesmo tempo. Ela nunca dá uma de gostosa; não tem pressa, sente a sua veia aqui, sente ali, fica cheia de dúvidas se é mesmo veia, músculo ou nervo e tenta mais um pouco para ter certeza e não errar. Aí ele te pergunta: Posso tentar? Quando ela dá a espetada você nem percebe, apenas vê o sangue fluindo escuro para dentro da seringa. É um verdadeiro alívio. Ela só precisou de uma espetada. Ela é craque. Craque da agulhada sem dor. Ela é uma profissional de verdade. Mil vivas para a Maria Luiza.
Vou ficar torcendo para encontrar outros craques da agulhada sem dor. Vocês não fazem idéia de como eles são importantes e como nossos braços e veias agradecem. Uma salva de palmas para os craques da agulhada sem dor.
Lou (maio/2007)

obs: A Maria Luiza foi transferida para o Sabin do Deck Brasil e eu fui atrás dela, é claro.

Saudade das amoras do passado

Além de viajar também gosto de ler e escrever. De vez em quando uma situação qualquer costuma inspirar e acabo por escrever uma crônica.
Fui passar o final de semana na casa de uma amiga e no domingo pela manhã saímos caminhando pela quadra e nos deparamos com vários pés de amora carregadinhos. Num instante estávamos com as mãos lambuzadas com a tinta das amoras maduras e muito doces. Tive uma inspiração e escrevi esta crônica.

Saudades das amoras do passado
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Quem teve a sorte de passar a infância nas pequenas cidades do interior, curtir férias escolares nos sítios ou fazendas saberá muito bem do que vou falar. Você comeu fruta no pé? Já subiu em goiabeira para catar e comer aquela goiaba amarelinha que cresceu lá nas grimpas?... Já catucou a mangueira para fazer cair aquela manga cheirosa e suculenta? Já comeu pitanga no pé? Já se fartou debaixo de uma árvore cheinha de jabuticabas negras e brilhantes? Já se lambuzou todo de amoras maduras muito doces? Já correu de marimbondo e levou picadas de abelhas nervosas? Ah! Se você já passou dos quarenta e cresceu numa cidadezinha tranquila desse nosso Brasil certamente já fez um pouco de tudo isso e tem gostosas lembranças daquela infância alegre e cheia de histórias para contar.
Um dia desses fui passar o final de semana na casa de uma amiga e depois do almoço resolvemos passear com o cachorro, num local cheio de amoreiras carregadinhas. O cachorro, criado em apartamento, nem sabia aproveitar a oportunidade de correr livre, rolar pelas folhas secas, dar galope nos passarinhos... Ele ficou ali parado, embaixo de uma árvore, enquanto nós nos deliciávamos com as amoras maduras e adocicadas. Enchíamos nossas mãos, que ficavam cor de vinho, e jogávamos aquele monte de amoras na boca para deixar o sabor espalhar por toda a língua. Que delícia!...
Parecíamos duas crianças de férias na fazenda, correndo de árvore em árvore, colhendo frutos maduros, saboreando devagar, sem pressa. O cheiro das amoras penetrou minhas narinas, o sabor da fruta despertou meus sentidos e de repente voltei no tempo... Fechei os olhos e me vi novamente criança correndo pelos pomares dos sítios e das fazendas. Ouvi as risadas cristalinas das crianças que povoaram minha infância, senti o cheiro dos currais, o som dos animais, o barulho das águas do rio descendo seu curso. Quanta saudade!
Lembrei do pai de meu amigo que nos levava para as fazendas onde ele ia fazer vistoria para o banco onde trabalhava. Enquanto ela fazia seus relatórios nós aproveitávamos tudo o que o lugar oferecia. Pescávamos usando enormes balaios, brincávamos nos longos cipós imitando o Tarzan e sua mulher Jane. Fingíamos fumar cachimbos usando goiabas verdes e talos de mamão, corríamos pelos enormes pastos, subíamos em árvores para colher frutos maduros.
A noite nos alcançava ainda cheios de energia. Adorávamos dormir nas fazendas para escutar os "causos" contados cheios de detalhes pelos velhos moradores locais. Eram histórias de fantasmas, lobisomens e afins. A molecada, ao redor das grandes mesas de madeira, ouvia extasiada todas as histórias arrepiantes. As casas mergulhadas na escuridão da noite eram iluminadas por singelas lamparinas. Os olhos arregalados da garotada incitavam os velhos a continuar suas aventuras. Quando o sono apertava as crianças se juntavam para dormir num dos enormes quartos, nos colchões de palha. Íamos devagar, ouvindo as tábuas rangerem sob nossos passos, com medo de encontrar a mula sem cabeça, o lobisomem ou qualquer outra figura daquelas gostosas histórias de arrepiar.
De repente ouvi meu nome e esse chamado trouxe-me de volta ao presente. Eu não estava mais correndo de mãos dadas com meu amigo Romualdo, sentindo o vento despentear meus cabelos. Não havia mais nenhum sítio ou fazenda, era apenas uma porção de pés de amora plantados numa entrequadra num daquelas enormes espaços verdes de Brasília. (27/10/2007)

Quando começo a ficar inquieta sei que está na hora de fazer as malas e dar um tempo. Viajar foi a forma que encontrei para recarregar minhas baterias, me fortalecer.
Em fevereiro dei uma fugida de alguns dias com minha filha. Foram dias inesquecíveis, pois aproveitamos cada minuto de nossa viagem para Portugal e Italia. Fizemos longas caminhadas entre um clique e outro de nossa máquina fotográfica. Um restaurante simpático era o bastante para despertar nosso apetite. Parávamos para almoçar sem pressa e nos deliciávamos com a culinária local enquanto bebíamos um bom vinho.
Visitando Cascais, em Portugal, tomamos a melhor sangria que já provei. Disse-me o garçom que os espanhois inventaram a sangria e eles aperfeiçoaram. Justiça seja feita, ela estava uma delícia.
No Porto chegamos em pleno carnaval. A cidade fervilhava por todos os lados com gente fantasiada. A diferença do carnaval lá é que as pessoas se vestem por inteiro e aqui se despem, também por inteiro...
Em Milão tivemos a sorte de ver a pintura da Santa Ceia, de Leonardo da Vince, no Convento Santa Maria delle Grazie. Uma amiga de infância que mora lá agendou a visita. É impressionante ver aquela pintura de perto. É magestosa. Ficamos emocionadas. A Bárbara também ficou muito impressionada com o Duomo e com a imagem de São Bartolomeu carregando a própria pele.
Duomo significa Casa de Milão. Essa igreja gótica, uma das maiores do mundo, levou 500 anos para ser construida. Só estátuas são mais de 3000 e 135 agulhas no telhado, de onde se tem uma soberba vista da cidade.
Fomos também conhecer o Lago de Como. Estava um pouco nublado mas isso não tirou a beleza do local. O lago é lindo e a cidade muito simpática. Passeamos de barco pelo lago como duas autênticas turistas e tiramos várias fotografias. Já cansadas, no fim do dia, pegamos o trem de volta para Milão.
Tornei a viajar em abril, desta vez para Curitiba. Fui com minha irmã e uma amiga rever um outro amigo que mora por lá. Como ficamos hospedadas num hotel bem central fizemos longas caminhadas para aproveitar o friozinho agradável que fazia na ocasião. Meu amigo, muito gentil, nos levou para todos os pontos turísticos, já que minha amiga e minha irmã estavam visitando a cidade pela primeira vez. Foram quatro dias muito bem aproveitados.
Novamente uma inquietação volta a me fazer pensar em arrumar as malas ...

O Dr Tosta ministra as 5 primeiras aulas de meditação prânica, a 10ª e a 15ª e o Dr Castelar treina a parte prática nos outros encontros. O nome do curso é "Cura pelo Amor". Nós aprendemos a importância do amorescer e de nos colocar no lugar do outro e também aprendemos que o autoconhecimento é o primeiro passo no processo de cura.
O Dr Tosta e o Dr Castelar são pessoas que fazem diferença no mundo.
Outra pessoa que também faz diferença no mundo é minha médica oncologista, a Dra Luci Ishii. Ela é aquele tipo de médico que entrou em extinção faz tempo... Ela não tem pressa no atendimento e consegue enxergar o paciente como um ser integral, não apenas um câncer num corpo físico muitas vezes já muito debilitado. Ela respeita nossas emoções, nossos sentimentos e sabe ouvir. É aquele tipo de pessoa que olha nos olhos, que se preocupa.
A clínica da Dra Luci, onde faço quimioterapia toda semana, possui uma equipe de profissionais que fazem a diferença. Tanto os médicos, quanto os enfermeiros e até mesmo as pessoas que trabalham na parte administrativa conseguem fazer com que o paciente se sinta acolhido, querido. São pessoas amorosas. Só quem precisa fazer um tratamento como esse consegue entender a importância desse diferencial.

Depois de dois anos de quimioterapias semanais o grande problema que eu estava enfrentando no tratamento era minha imunidade que estava sempre muito baixa. Eu precisava tomar injeções de granuloquine quase que semanalmente, o que provocava dores horríveis pelo corpo.
Imunidade baixa deixa a pessoa muito vulnerável, sujeita a infecções oportunistas e recorrentes, além de muito cansada.
Cheguei naquele ponto em que não tinha nada a perder e então comecei a pensar em procurar terapias alternativas. Fui convidada por uma amiga, que também faz quimioterapia, para fazer parte de um grupo de meditação para pacientes com câncer de mama, dirigido por dois médicos, o Dr. Tosta e Dr. Castelar. Inicialmente não fiquei muito entusiasmada, mas decidi me inscrever no curso. Fiz parte da segunda turma e logo que iniciei as práticas pude perceber os benefícios da meditação. Desde então minha imunidade tem se mantido estável e não precisei mais interromper o tratamento e muito menos tomar aquelas injeções que tantas dores me provocavam. Fiquei tão entusiasmada com o resultado alcançado que agora sou voluntária no terceiro grupo de meditação.

Gosto de escrever e por isso resolvi criar este blog. Tenho aqui um espaço para me expressar, passar adiante as experiências que estou vivendo enquanto faço tratamento para curar algumas metástases de um câncer que começou há muito tempo, em 98, na mama.
O pesadelo voltou há pouco mais de 2 anos e desde então estou em constante tratamento. Já tive altos e baixos, já me senti muito mal e cheguei até a pensar que minha hora de partir havia chegado, mas agora estou bem e acreditando que posso, mais uma vez, vencer a parada.
Não é uma batalha fácil, mas é uma batalha possível de ser vencida.
Quando estava cansada e muito desanimada, conheci uma pessoa fantástica que me ajudou a sair do fundo do poço. Eu que nunca fui muito religiosa, conheci o Padre Pedro Bach e tivemos uma longa conversa. Contei-lhe da minha frustração com a recaída da doença, falei de minhas dores físicas e emocionais e chorei bastante. Ele, com aquele jeitinho especial, aquela paciência e bondade, escutou minhas queixas, ouviu meu pranto, e conversou longamente comigo. A partir daquela conversa comecei devagar a trilhar o caminho de volta a minha espiritualidade perdida... Inicialmente, por sugestão dele, assisti 90 dias de missas diárias com comunhão e a partir daí voltei a frequentar a igreja, voltei a rezar. Concluí que a oração me faz bem. Aliás, concluí que a oração pode fazer bem para toda e qualquer pessoa. Ela nos coloca em contato com o divino...

Vou iniciar explicando o nome do blog "Pausa para Viajar".
Quando estou no meu limite, precisando recarregar minhas baterias, é hora de fazer as malas e sair por aí. Não faz a menor diferença viajar para uma cidadezinha do interior ou para uma grande metrópole, para o campo ou para a praia . Meu negócio é sair pelo mundo. Prefiro viajar acompanhada, mas se não for possível viajo sozinha mesmo.
Minha grande companheira de viagem, além de algumas amigas, é minha filha. Adoramos viajar juntas para explorar o mundo. Falamos a mesma linguagem, gostamos das mesmas coisas. Tanto curtimos passar horas dentro de um museu quanto passear por um belo parque ou apenas caminhar pelas ruas de uma cidade onde acabamos de chegar. Achamos divertido sentar num restaurante para apreciar os sabores do lugar enquanto apreciamos um bom vinho e batemos papo entre uma gargalhada e outra. Rimos de tudo, achamos graça das coisas mais tolas, afinal estamos de férias, estamos viajando...
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