Resultado do PET

      Depois do último diagnóstico que evidenciou o avanço do câncer metastático e a falta de opções da medicina para casos como o meu decidi que não iria ficar chorando desesperada, apenas esperando a morte chegar. Já que não havia opção na medicina, eu iria criar essa opção vivendo a vida do jeito que gosto, sendo feliz com o que tenho nas mãos e viajando. Foi o que fiz.
     Antes de embarcar fiz três protocolos do quimioterápico folfiri, de forma experimental, na tentativa de barrar o avanço da doença, e depois minha médica suspendeu a quimioterapia um mês antes da viagem para evitar que os efeitos colaterais atrapalhassem o passeio. Embarquei para a Bretanha no dia 8 de outubro para umas férias de três semanas numa terra em que a natureza dá o tom.
     O melhor de tudo foi rever minha filha que está viajando desde fevereiro, curtindo um ano sabático, sonho antigo que ela está realizando este ano. Ficamos juntas uma semana na Bretanha, curtindo a natureza, conhecendo lugares incríveis, dividindo momentos de muito amor e cumplicidade.
     Voltando ao assunto do câncer, duas semanas antes do último diagnóstico eu havia iniciado um curso na igreja católica chamado Oficina de Oração. Essa oficina ensina, a qualquer pessoa que queira, independentemente de sua opção religiosa, orar e entrar em conexão com Deus e com o divino. Tenho certeza de que a meia hora diária de oração me ajudou e continua ajudando a entrar num estado de paz interior e conexão com o Pai que faz toda a diferença no enfrentamento dos problemas inerentes a doença, ao tratamento e até do dia a dia.  Estou aprendendo, com esse estado de meditação, que a felicidade é realmente um jeito de ser, um estado mental e, pelo menos para mim, está funcionando de forma positiva.
      Finalmente chegou a hora da consulta. O médico abriu o resultado do PET na tela do computador, olhou atentamente enquanto eu, também atentamente, observava suas reações ao que lia. Percebi um leve e discreto sorriso e aquilo me pareceu um bom sinal. Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade ele virou para mim e disse: houve uma melhora significativa. Em alguns pontos as metástases regrediram enquanto em outros está estável. Isso é ótimo! A doença está sob controle novamente. Saí da zona de risco iminente.
      Definitivamente a fênix que existe em mim renasceu das cinzas mais uma vez.

Último dia em Paris

      O dia amanheceu nublado, frio e ameaçando chover. Estava tudo escuro e feio então resolvemos tomar nosso café da manhã sem pressa e depois, bem encapotadas, saímos para nosso último dia em Paris. Para evitar dores e cansaço, e já que tanto eu quanto a Lia conhecemos a cidade e suas melhores atrações, decidimos fazer um passeio com ônibus de turismo Hop on Hop off. São mais de 3 horas de passeio percorrendo os pontos turísticos mais cobiçados e a pessoa pode descer e subir no ônibus quantas vezes quiser, durante o período de 24 horas de validade do bilhete.
     Como nosso hotel ficava próximo da Igreja de Notre Dame foi lá que embarcamos. Ficamos no andar de cima do ônibus de turismo, na parte coberta, e tínhamos uma vista privilegiada da cidade. Primeiro demos uma volta completa no circuito. Quando a fome apertou desembarcamos para almoçar, embarcamos em seguida para descermos novamente no Trocadero. Queríamos fotografar a Torre Eiffel daquele ângulo, com calma. Aproveitamos uma apresentação de música nos jardins do Trocadero, tomamos sorvete sentadas confortavelmente enquanto observávamos o movimento dos turistas naquele vai e vem incessante. Naquela altura do dia o sol brilhava e em nada lembrava a manhã fria e cinzenta que encontramos ao acordar.
     Fomos caminhando devagar para tomarmos o ônibus novamente. Já era final de tarde então desembarcamos pela última vez na margem do Sena e percorremos sem pressa o caminho dos caixotes verdes onde ficam os buquinistas vendendo seus livros antigos, cartazes e souvenirs. Aliás, acho que aqueles caixotes verdes alinhados ao longo da mureta do Sena e seus buquinistas já fazem parte da história de Paris. São como um cartão postal da cidade.  Reza a lenda que alguns daqueles caixotes verdes estão ali desde o século XVIII, será?
     Quando o sol começou a exibir seu  ocaso ao entardecer fomos para a beira do rio observar e curtir aquele momento. O som da cidade parecia ter desaparecido para nos permitir apreciar a natureza se mostrando em todo seu esplendor. Ele foi se escondendo devagarinho no centro de um colorido dourado lindo. Quando a noite começou a aparecer continuamos nossa caminhada em direção ao hotel, ainda inebriadas com tamanha beleza. O céu já estava se cobrindo de um tom azul escuro e as primeiras estrelas começavam a enfeitar o firmamento...




Um giro em Paris (24 out 2017)

     Paris amanheceu fria e chuvosa. Uma chuva fininha, típica de molhar bobo. 
     Helena e Luciana ficaram de nos encontrar no hotel para sairmos juntas mas, como elas atrasaram um pouco, por causa do trânsito intenso pela manhã, a Lia resolveu sair sozinha para resolver suas coisas. Eu continuei aguardando e em poucos minutos elas chegaram esbaforidas, preocupadas com o atraso.
     Tentamos encontrar a Lia mas não deu certo então fomos passear. Decidimos ver a exposição do Rubens, exibindo retratos de príncipes, que estava no Musée du Luxembourg e passamos algumas horas por lá apreciando todos aqueles quadros, lendo sua história. Minhas costas doíam tanto que chegavam a arder então, onde havia um banco eu sentava para aliviar um pouco e dar tempo do emplastro fazer o efeito desejado.
      Sentada eu apreciava com calma as pinturas das pessoas retratadas por Rubens como Marie de Médicis e outros soberanos. Aliás tenho que destacar que para pintar soberanos era preciso ter muito prestígio e Rubens era o pintor mais importante de sua época. Ao apreciar todas aquelas obras de arte barroca me veio a lembrança das últimas exposições apresentadas no Brasil e que causaram tantas polêmicas. Não consegui evitar e comparar o lixo que alguns, que se autodenominam artista de hoje, apresentam como se fosse arte. Tenha dó. Não dá nem para discutir, é lixo mesmo. E de péssimo gosto.
     Saímos do museu com fome, então paramos no Les Deux Magots para almoçar. Para variar, o almoço estava delicioso e, em boa companhia, ficou melhor ainda. Almoçamos sem pressa, papeando, contando histórias, relembrando situações engraçadas e dando risadas. Foi ótimo. Depois saímos caminhando devagar pelos arredores e, sem querer, demos de cara com a perfumaria Buly, fundada em 1803, e que serviu de inspiração para Balzac escrever seu romance César Birotteau que conta a ascensão e a queda de um perfumista que buscava prestígio na alta sociedade.
     Adoro entrar nessas perfumarias antigas, que ainda guardam vestígios de seu passado no mobiliário, nos frascos de perfumes e até no piso de azulejos vitrificados, já bem gastos pelo tempo. Era tudo tão charmoso. As estantes de madeira nobre cheias de gavetinhas pequenas e detalhadas, os frascos bem trabalhados, os funis pequeninos para que o freguês possa, ainda hoje, sentir a fragrância do perfume que o irá seduzir... Não tivemos pressa em sair dali onde muitas pessoas, como nós, apreciavam aquele pedaço do passado que estava tão bem conservado.
     Minhas costas voltaram a doer muito. Decidimos pegar um táxi de volta ao hotel onde encontramos a Lia descansando. Ela desceu e ficamos conversando um pouco na salinha ao lado do refeitório de café da manhã. Mais tarde a Helena e Luciana foram embora para continuarem o passeio que haviam programado. Eu e Lia ficamos no hotel descansando, de onde só saímos mais tarde para darmos uma pequena volta nas margens do Sena.

De volta a Paris ( 23 out 2017)

      O táxi nos pegou no hotel em Dinard e nos deixou na Gare em Saint Malo. Uma chuvinha fina caiu o tempo todo, como a nos lembrar que assim costuma ser o tempo na Bretanha. A viagem de trem foi tranquila e durou quase três horas.
      Retirar as malas do trem estava complicado, ainda bem que apareceu um jovem abençoado para nos ajudar. Ficou bem claro que pessoas idosas, ou com qualquer tipo de limitação, devem evitar viagens de trem e, se o fizerem, devem carregar, na melhor das hipóteses, uma pequena mala de mão. Nada de uma mala de tamanho médio, caso das nossas, e muito menos uma mala grande e pesada.
      Estávamos arrastando nossas malas pelo chão irregular da Gare quando apareceu um carregador. Ufa! Que alívio. Ele colocou nossas malas no carrinho e nos levou até a área do táxi que nos deixou no hotel. Lá, fomos recebidas pela simpática Raquel como se fôssemos amigas de longa data.
     Deixamos nossas malas no quarto e saímos para almoçar num restaurante próximo do hotel. Já passava das 15h, estamos cansadas e com fome. Paris estava fria e chovia bastante. Não parecia nada animador nos afastarmos muito. Depois do almoço voltamos para o hotel para descansar e a Helena pegou outro táxi para se encontrar com a filha em outro hotel. Aquela parte da viagem ficaríamos somente eu e Lia em Paris e de lá iríamos para Lisboa antes de retornarmos a Brasília.  A Helena ficaria com a filha em Paris por alguns dias e depois seguiriam viagem juntas para Milão.
      Descansamos e pouco e quando descemos ao saguão do hotel o tempo havia melhorado bastante. Aproveitamos para dar uma volta pela cidade. Só bater perna pelas ruas de Paris, ou caminhar sem pressa nas margens do Sena já vale por um passeio.

Um giro na Bretanha - último dia em Dinard (22 out 2017)

      Nosso último dia em Dinard amanheceu nublado, com a maré alta e ondas violentas quebrando no calçadão e a água invadindo a promenade des Anglais. O tempo esfriou bastante, o céu estava cinza e triste e uma chuva fina caia insistente, como é comum na Bretanha. Mesmo assim o mar estava cheio de surfistas e alguns banhistas, sem medo de água gelada, nadavam calmamente naquele mar bravio.
      Eram 11:30h da manhã e a chuva continuava a cair. A maré já estava recuando e, da janela da sala, eu via os últimos surfistas deixarem o mar. Ventava bastante, mas na faixa de areia alguns jovens rapazes jogavam bola. Eles não se importavam com o frio, com a chuva, e nem com o vento gelado.
      Eu bem que preferia um belo dia de sol para me despedir da Bretanha mas, cá para nós, dias chuvosos são bem a cara daquela terra que aprendi a amar. Nós é que demos muita sorte em pegar todos aqueles dias de tempo bom. Fomos almoçar no restaurante dos gerânios o prato que mais gostamos na cidade: brochette de coquille Saint Jacques e camarão. Delícia!
      Choveu e abriu o sol várias vezes durante o dia e lá pelas tantas um belo arco íris se formou no mar. Que lindo! Fiquei observando da janela até ele se dissipar entre as nuvens, ficando só em minhas lembranças. 
      No dia seguinte seguiríamos viagem para Paris. O Lionel foi se despedir e levou para mim um presente de sua mãe. Fiquei emocionada. Dona Denise, que só me viu pessoalmente uma vez, me deu de presente uma relíquia que ela trouxe da Terra Santa, lá pelos anos 60, quando visitou a cidade. Ela, que já alcançou muitas graças, quer que a relíquia agora me ajude a recuperar a saúde, fazendo o que a medicina não consegue mais fazer. Fiquei comovida com o carinho e o desprendimento de uma senhorinha com mais de 90 anos. Tenho certeza de que para ela não deve ter sido simples desapegar de uma relíquia que a acompanha por tantos anos.

Um giro pela Bretanha - Dinard (21 out 2017)

      A feira de rua em Dinard aos sábados é muito maior do que nas terças e quintas. Parece até que as famílias da cidade fazem da feira um ponto de encontro aos sábados. O carrossel estava cheio de crianças. Alguns pais, meio sem jeito, tentavam ajeitar seus pimpolhos nos brinquedos. Algumas crianças preferiam os carrinhos, outras preferiam subir nos brinquedos em formato de animais. Fosse em qualquer tipo de brinquedo o fato é que tanto as crianças quanto seus pais todos se divertiam prá valer. A música tocava alta. O vai e vem das pessoas era incessante. E a vida acontecia naquela cidade pacata, cheia de idosos competindo em idade com Matusalém.
      O almoço no restaurante dos gerânios estava divino. Apelidamos o restaurante dessa forma porque suas janelas baixinhas, de frente para a rua, são enfeitadas com gerânios vermelhos e ficam muito graciosas. Depois do almoço fomos caminhar pela promenade des Anglais. Que vista linda! Não me canso de apreciar aquele mar verde esmeralda e a silhueta de Saint Malo destacando a torre da Igreja de Saint Vicent.
     Demos uma volta completa na promenade e depois retornamos ao calçadão em frente a praia d'Écluse. Enquanto Helena e Lia foram ao mercado comprar chocolate, fiquei sentada num dos bancos do calçadão observando a vida acontecer. Os restaurantes e quiosques estavam lotados e cheios de filas. Parece que todos queriam aproveitar o raro e belo dia de sol no outono. Algumas pessoas caminhavam sozinhas, outras com seus parceiros, famílias inteiras com filhos e cachorros e muitas pessoas com seus animais de estimação. Era uma festa.
     Na areia da praia, aproveitando a maré baixa, uma mulher brincava com seu cachorro jogando um graveto bem longe. O cachorro corria, pegava o graveto e trazia de volta para recomeçar a brincadeira. Ele latia, abanava a cauda e corria feito um maluquinho. Uma graça. Um outro cachorro, de pequeno porte, caminhava na beirada do muro que separa a areia da praia da calçada. O muro é muito alto e fiquei na maior aflição com medo que o bichinho acabasse se esborrachando lá embaixo. Ele não estava nem aí e continuava seu trajeto todo faceiro.
     Naquele frenesi de pessoas caminhando, beliscando algum petisco, tomando sorvete, ou fazendo nada como eu, observei Hitchcock impassível sob seu pedestal no calçadão. As gaivotas abusadas, que adoram roubar qualquer tipo de comida de algum turista distraído, pousavam em seu ombro e até em sua cabeça que já estava toda suja de seus dejetos. Fiquei ali mais um pouco até que o vento começou a soprar frio e forte então levantei e caminhei devagar em direção ao hotel que ficava ali perto. Do sofá da sala continuei apreciando o mar e suas ondas quebrando na praia, as pessoas caminhando, a vida acontecendo na pacata Dinard numa tarde de outono...

Um giro pela Bretanha - Saint Malo (20 out 2017)

      Não conseguimos nenhum táxi em Dinard então optamos por pegar um ônibus até o terminal de Saint Malo e, de lá para a cidade intramuros, um táxi. Foi bom porque já deixamos combinado com o taxista de nos pegar no hotel dia 23, quando voltamos a Saint Malo para tomar o trem para Paris.
      Saint Malo, localizada numa das margens do Canal da Mancha, é uma cidade medieval totalmente murada. São mais de 1.700m de muralhas que serviam de abrigo para os corsários franceses que saqueavam os navios que passavam pelo canal, com o aval do Rei...
      A cidade murada é conhecida também por causa de alguns de seus moradores célebres como Jacques Cartier, explorador europeu nascido em Saint Malo. Ele ficou conhecido por ter realizado três viagens ao Canadá. Cartier navegou para a América do Norte em busca de ouro, especiarias e uma rota mais curta para a Ásia, e acabou por descobrir o rio São Lourenço que é o principal acesso ao interior do Canadá. Tem também o famoso escritor François-René de Chateaubriand, nascido na cidade e que está enterrado na Ilha Grand-Bé, ali pertinho.  Na maré baixa é possível ir caminhando a pé até a ilha.
       A catedral de Saint Vincent, construída entre os séculos 12 e 18, patrimônio histórico da cidade, foi parcialmente destruída na guerra. Foi reconstruída e guarda em seu interior o túmulo do explorador Jacques Cartier.
      Saint Malo tem uma história triste. Foi quase totalmente devastada na Segunda Grande Guerra, quando mais de 80% da cidade ficou destruída. Sua reconstrução demorou mais de 30 anos. Dinard, sua cidade vizinha, também sofreu com a ocupação dos alemães. Ainda hoje é possível ver restos dos bunkers alemães nas praias de Dinard.
      Outra coisa que é preciso destacar sobre a cidade é sua gastronomia. No almoço comemos um risoto de Saint Jacques divino. Nossa! Que delícia. Seus doces também são muito apreciados. Um deles, bem típico, é o kouign-Amann, uma espécie de croissant caramelizado, com muita manteiga e açúcar.
     É gostoso caminhar em cima das muralhas da cidade mas, naquele dia, ventava tanto que tornava o passeio bastante penoso. Desistimos. Optamos por passear por suas ruelas cheias de lojinhas mas, mesmo assim, um vento impiedoso insistia em deixar tudo gelado. Eu tinha esquecido minha touca e como meu cabelo está muito curtinho minhas orelhas ficaram geladas e minha cabeça começou a doer. Na primeira loja que vi um gorro com cara de quentinho entrei crente que iria comprar. Quando vi o preço quase tive um ataque: ele custava mais de 300 euros. Credo! Indaguei se era tecido com fios de ouro... Saí da loja de fininho e entrei em outra, quase em frente, e comprei um gorro listrado, que me deixou com aparência de delinquente, por apenas 9 euros. Melhor assim, e bem mais barato...