Impressões de infância

Estava sentada na varanda conversando quando observei que a pintura do muro que divide minha casa com a academia estava cheio de bolhas. Levantei-me sem pressa e fui até a cozinha pegar uma faca com ponta para descascar a pintura.
Cheguei até a parede e comecei a enfiar a ponta da faca nas bolhas de tinta e num instante retirei grandes pedaços da pintura. Minha mãe arregalou os olhos sem entender o que eu estava fazendo e reclamou que o muro estava ficando feio e sujo mas eu continuei a arrancar pedaços da pintura e grata surpresa, embaixo da pintura verde encontrei as impressões das palmas das mãos que minha filha e os amiguinhos fizeram há muitos anos e a lembrança daquele dia distante se instalou num instante em minha memória.
Lembro-me bem, as crianças estavam reunidas em minha casa para aproveitarem juntas um final de semana e já haviam esgotado todo tipo de brincadeiras quando vi um monte de potes de tinta empilhados num canto. Olhei para a enorme parede pintada de azul e sugeri que eles aproveitassem todo aquele espaço para pintar o que bem entendessem. O muro era todinho deles.
Foi uma festa. Cada criança pegou um pote de tinta na cor de sua preferência, enfiou a mão no pote para em seguida imprimi-las na parede. Cada um fez sua pintura como achou melhor e em pouco tempo o muro estava cheio de mãos e assinaturas, de riscos coloridos e até pezinhos.
Qual criança nunca sonhou em fazer uma coisa dessas? Eles riam alto e conversavam trocando idéias enquanto iam imprimindo suas mãos na parede. Estavam felizes. No final do dia, quando os pais chegavam para pegá-los, a primeira coisa que contavam era a farra da pintura no muro.
De volta ao presente olhei para minhas mãos vermelhas e inchadas e concluí que era hora de parar de arrancar a tinta, mas minha irmã continuou e eu fiquei de lado observando as mãozinhas aparecerem. Fui rapidinho pegar a máquina para fotografar o achado e me senti como um arqueólogo descobrindo pinturas rupestres nas cavernas perdidas na mata densa. Era gostoso ver as pinturas aparecendo e relembrar aquele dia de folia.
Cada trecho descascado no muro revelava diversas mãos, assinaturas e até mesmo o suposto ano daquela farra, 1999. Fiquei pensando naquelas crianças, hoje jovens adultos iniciando suas carreiras. Alguns já estão até formados e trabalhando, outros finalizando seus cursos nas universidades e alguns fazendo estágio em outros países. Quanta coisa aconteceu com aquela turminha amiga desde aquela tarde distante em que a melhor coisa do mundo era simplesmente enfiar a mão num pote de tinta colorida para imprimi-las no muro.

Lou/mai 2010
2 Responses
  1. Lara Amaral Says:

    Quase chorei, tia, juro, um dos textos mais lindos que já li, nossa!

    Beijo.


  2. Anônimo Says:

    Ma, q delícia! Nossa, esse dia foi mto divertido. Ah, para os desavisados, os pezinhos são feitos com a mão. A Tia Suzi e a mamãe passaram a tarde pensando de qual criança eles eram. Rs

    Bons tempos esses de Escola das Nações! Saudades...


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Obrigada pelo comentário. bjs Lou