Meu fluxo salivar parece ter voltado ao normal

     Quinta-feira fiz a segunda dose do novo protocolo de quimioterapia, após ter adiado o tratamento por duas semanas por causa da baixa imunidade. No primeiro ciclo desse protocolo, com mais de quatro horas de infusão na veia, senti muito dificuldade para usar o banheiro porque fiquei muito grogue por causa do antialérgico, então para me poupar do desconforto resolvi experimentar usar uma fralda geriátrica para evitar ter que me levantar. 
     No início achei muito estranho usar a fralda, mas só de não precisar levantar auxiliada por duas pessoas já valeu a experiência. Ir até o banheiro carregando aquela parafernália com soro e químio, e ainda amparada, é complicado e eu tinha medo de cair.
     Ontem durante o dia me senti bem melhor do que no primeiro ciclo, pois não fiquei nauseando e nem senti aquela fadiga horrível. Acho que é porque da outra vez fiz a dose de ataque que é mais pesada. Uma coisa que observei durante o dia era que de vez em quando eu engasgava com a saliva e percebi durante a noite, quando eu acordava por ficar engasgada, que voltei a produzir saliva e acho que meu cérebro ainda está se acostumando com a nova condição, então ainda engasgo. Quando minha boca ficou com baixa salivação eu acordava com os dentes pregados nos lábios e era muito desconfortável. Meu dentista chegou a recomendar o uso de saliva artificial para aliviar o problema e evitar cárie.
     Fiquei pensando no que pode ter acontecido para que meu corpo voltasse a produzir o fluxo normal de saliva e me animei em pensar que se isto aconteceu espontaneamente quem sabe o mesmo mecanismo que proporcionou a reposição da saliva também não resolva parar de produzir novas células neoplásicas? Se um dia meu corpo se desprogramou para me adoecer acredito que ele também poderá voltar a se reprogramar para me deixar saudável. Sabe que gostei desta idéia. Quem sabe dá certo?

Quimioterapia - baixa imunidade - granuloquine

     Ontem pela manhã fui novamente ao consultório do Dr. Gustavo Lara, o otorrino que me atendeu semana passada depois da forte crise de zonzeira durante uma consulta com meu oncologista. A tal manobra de Brandt Daroff é realmente mágica, pois resolveu o problema. De qualquer forma precisei fazer a ressonância magnética do crânio e da coluna. O Dr. Fernando solicitou a ressonância do crânio para descartar uma possível metástase no cérebro. A da coluna é por causa da metástase óssea que tenho na vértebra T3 e das fortes dores em minhas costas. Precisamos descobrir a origem dessa dor que me impede até pequenas caminhadas, estragando o meu prazer em andar por aí.
     Hoje estava agendada a segunda dose do novo protocolo de quimioterapia, mas como minha imunidade estava muito baixa o Dr. Fernando achou melhor adiar por mais uma semana enquanto tomo 5 doses de granuloquine. Mais uma vez será necessário tomar esta medicação que deixa meu corpo moído de dor, mas o que não tem remédio...
     Pior que tomar cinco doses de granuloquine é saber que daqui para frente será necessário tomar outras cinco doses após cada quimioterapia. E depois ninguém entende porque não gosto de usar carboplatina. Era tão mais fácil quando eu fazia apenas o Herceptin.
    

Manobra de Brandt Daroff e o mundo parou de girar ao meu redor

      Depois que fiz a primeira dose da quimioterapia do novo protocolo comecei a me sentir zonza todas as vezes que me virava na cama ou mexia com a cabeça para os lados ou para cima e para baixo. A vertigem piorou bastante esta semana, mas como eu já estava com consulta agendada com meu oncologista acabei adiando a do otorrino.
     Hoje pela manhã passei pela consulta com o Dr. Fernando e senti uma zonzeira muito forte quando tentei me deitar para o exame clínico. Ele fez um teste mandando eu seguir a ponta de seu dedo apenas com os olhos e concluiu que o melhor seria adiar a quimioterapia que estava agendada para hoje para a próxima sexta-feira, e me encaminhou para o consultório do Dr. Gustavo Lara, que é otorrino, para um atendimento emergencial.
     O Dr. Gustavo fez alguns testes de equilíbrio corporal e acabou concluindo que tudo não passava de uma vertigem posicional. Ele explicou que isto pode acontecer por causa do uso de alguns quimioterápicos e outras causas, mas que não é grave e é relativamente simples de resolver. Não prescreveu nenhum tipo de remédio, o que me agradou muito, e optou pela manobra de reposição canalítica, chamada Manobra de Brandt Daroff.
     A Manobra de Brandt Daroff tem o objetivo de reposicionar corretamente alguns cristais que ficam dentro do nosso ouvido interno, no labirinto. Estes minúsculos cristais chamados otólitos são responsáveis pelo equilíbrio do nosso corpo e quando saem do lugar tiram nosso corpo do prumo. São alguns segundos assustadores que parecem nos jogar no olho de um furacão. É uma sensação muito ruim.
     Na hora que o Dr. Gustavo iniciou a manobra o mundo ao meu redor girou feito louco e manter os olhos abertos foi bem difícil, mas na medida que os exercícios avançavam a zonzeira foi cedendo e quando saí do consultório já me sentia muito melhor. Que manobra mais eficiente! Fiquei encantada. Agora vou fazer alguns exercícios em casa e retorno ao consultório para outra avaliação na próxima quinta-feira.
     De qualquer forma o Dr. Fernando achou mais seguro pedir uma ressonância magnética de crânio para descartar qualquer problema mais grave. Na próxima quinta-feira vou fazer a ressonância do crânio e também da coluna para saber exatamente o que está provocando as dores nas costas e na sexta-feira faço a segunda dose no novo protocolo.

Sintoma novo: zonzeira

     Há umas duas semanas mais ou menos percebi que as vezes, ao me virar na cama, ficava zonza. Não dei muita importância para o problema até ontem quando a coisa começou a piorar. Agora quase todas as vezes que abaixo, levanto ou viro a cabeça o mundo inteiro parece girar ao meu redor. Ainda bem que a zonzeira passa relativamente rápido, mas nem por isto deixa de ser um grande incômodo.
     Não sei se a zonzeira é algum efeito colateral da nova medicação que estou usando ou se é labirintite ou algo relacionado com o ouvido, mas na próxima semana vou fazer uma consulta com um otorrino. Ficar zonza toda vez que faço algum movimento com a cabeça é muito chato, além do perigo de acabar esborrachando no chão por falta de equilíbrio.
     Na próxima sexta-feira também vou fazer a segunda dose do novo protocolo quimioterápico, mas antes vou passar por mais uma consulta com o dr. Fernando. A primeira semana depois da quimio foi bem difícil e cheia de efeitos colaterais, mas a segunda foi mais tranquila. Agora sinto mais é fraqueza, mas também não é o tempo todo.
     Minha unha do pé continua dando trabalho e o dedão do pé direito está muito dolorido. Hoje fui na podóloga e a Inês, além da órtese, colocou também uma borracha para ajudar a levantar a unha para que ela não continue enterrando na lateral do dedo e provocando dor. Tomara que dê certo, pois sentir dor o tempo todo é irritante demais e eu não tenho a menor vocação para mártir e detesto sentir dor (será que alguém gosta? Acho difícil, mas como existe doido para tudo...).

Primeira semana do novo protocolo

     Na última sexta-feira fiz a primeira dose do novo protocolo que inclui a carboplatina e já no dia seguinte comecei a sentir os efeitos colaterais da medicação que inclui náusea e fadiga intensa. Dormi a maior parte do tempo, o que de certa forma ajuda a sentir menos o problema da náusea mas não resolve.
     Os primeiros dias foram bem difíceis, pois passar o tempo todo sentindo náusea e tendo refluxo ninguém merece. Evitava conversar para não piorar as coisas, pois quando tentava falar a náusea parecia ficar ainda pior (um castigo para quem gosta de um papinho furado).
     Meus cabelos já começaram a cair e antes que a coisa piorasse resolvi hoje que estava na hora de passar a máquina número dois para deixá-lo bem baixinho. Acho menos deprimente deixar o cabelo raspadinho do que ficar olhando o piso branco do banheiro ficar cheio de tufos negros e prata de um cabelo que fatalmente vai cair todinho mesmo. Além do mais não vejo o menor problema em assumir minha careca. Taí um problema que não me afeta nem um pouco e eu até gosto da minha careca, basta colocar uns brincos bem grandes que fica até interessante... Minha mãe não gostou nada quando me viu sem cabelos. Pobrezinha, ela ainda associa a perda de cabelos com a morte iminente por causa do câncer. Ainda bem que os tempos mudaram e a medicina avançou muito no tratamento desta doença que ainda assombra e mata muita gente.
     Até ontem foi bem difícil conviver com os efeitos colaterais da quimioterapia, mas hoje já estou me sentindo um pouco melhor. A sensação de fraqueza e fadiga ainda persistem, mas o enjoo diminuiu e até consegui almoçar quase perto do normal. Estou fazendo refeições ainda menores do que faço normalmente mas com intervalos mais curtos e acho que o resultado está sendo satisfatório, pois estou conseguindo me alimentar bem, eu diria. De qualquer forma vou conversar com uma nutricionista para ter certeza de que estou me alimentando bem mesmo.
    

Evolução do câncer metastático e mudanças no protocolo

     Já faz algum tempo que não escrevo nada sobre meu tratamento, afinal a doença estava sob controle e tudo caminhava relativamente bem durante mais de seis meses até que comecei a perder peso e sentir dores nas costas, principalmente quando eu caminhava. Meu intestino também não estava normal, e depois de perder uns seis quilos, sem fazer nada para que isto acontecesse, logo imaginei que alguma coisa errada devia estar acontecendo com meu corpo. 
     Agendei o PET e o resultado, por causa dos jogos da copa, demorou um pouco mais do que o normal para ficar pronto. Acho muito estranho, e realmente não consigo entender, que jogos de futebol, sejam de copa ou de qualquer outro campeonato, interfiram até mesmo no tempo para sair o resultado de um exame tão importante para o controle e o tratamento de uma doença como o câncer. Os pacientes graves não estão preocupados com o resultado da copa do mundo... 
     Assim que peguei o resultado do PET no laboratório fui direto para minha consulta com o dr. Fernando Maluf e, como eu já esperava, fiquei sabendo que o câncer no esterno e na vértebra T3 havia piorado, mas os demais focos do doença continuavam estáveis. Pensei: menos mal do que eu esperava, pois os órgãos vitais continuam preservados e só isto já é uma grande vantagem.
     O Dr. Fernando optou por mudar o protocolo que eu vinha fazendo desde que iniciei o tratamento com ele. Foi retirado o Tykerb e mantido o zometa (só que mensal e não mais trimestral como era antes) e o Herceptin, mas foi acrescentado o Pertuzumab e a Carboplatina. Quando ele mencionou a carboplatina cheguei a sentir um arrepio, pois me lembro muito bem que já usei esta quimioterapia e não foi nada fácil. Minha imunidade despencava e já viu o resto... Protestei mas fui voto vencido e hoje fiz a primeira dose do novo protocolo, com a tal da carboplatina.
     Quando cheguei na Oncovida tive a grata surpresa de encontrar em treinamento o Humberto, um auxiliar de enfermagem que trabalhava na outra clínica onde eu fazia tratamento. Demos um gostoso abraço naquele encontro inesperado, pois foi muito bom rever alguém com quem convivi durante mais de cinco anos.
     Como a clínica estava lotada fui encaminhada para uma sala coletiva ao invés do box individual e em poucos minutos eu já estava conversando abobrinhas com todos os outros pacientes e acompanhantes e dando gostosas gargalhadas. O enfermeiro que nos atendia deve ter estranhado tantas risadas e insinuou, muito discretamente, que era melhor diminuir a alegria, pois era possível ouvir nossas risadas nas outras salas. Olhamos uns para os outros e rimos ainda mais, afinal, rir ainda costuma ser o melhor remédio para a cura de muitos males.
     Logo depois da discreta bronca o enfermeiro aplicou uma medicação na minha veia e falou alguma coisa que não registrei, mas poucos minutos depois senti meu corpo ficar estranho e pesado, minha língua parecia grossa e então comecei a sentir dificuldade na fala. Perguntei o que estava acontecendo comigo e ele riu dizendo que havia alertado que estava aplicando um forte antialérgico que já estava fazendo o efeito esperado e eu iria dormir. Ainda rindo das conversas fiadas com os outros pacientes que estavam tomando medicações mais leves do que a minha falei com o enfermeiro que ele tinha me aplicado um sossega leão para que eu calasse minha boca e parasse com a conversa e as gargalhadas. Só me lembro que ainda ri um pouco mais com a brincadeira e fui sentindo que eu era tragada para um buraco negro bem longe dali. As vozes foram ficando cada vez mais distantes. Tentei resistir mas foi impossível, dormi profundamente e quando acordei todos já haviam ido embora, só eu ainda estava ali sozinha fazendo quimioterapia. A Suzi, como sempre, aguardava pacientemente.
     Hoje fiquei mais de quatro horas na clínica para fazer todo o protocolo. Saí de lá completamente grogue e precisei de ajuda para caminhar até o carro. Cheguei em casa e continuei a dormir um sono pesado, cheio de imagens confusas... Acordei ainda meio mole, cansada, sem muita vontade de conversar. Achei melhor vir escrever um pouco.

De volta ao passado


          Ansiava voltar, mas nunca dava certo até que finalmente aconteceu. Na memória, muitas lembranças... Saudades... 


              Cheguei caminhando devagar sem a menor pressa e observei cuidadosamente tudo ao meu redor. Os  jardins cobertos de flores perfumadas continuavam lindos e ainda exibiam sem o menor pudor o mesmo caleidoscópio de cores vibrantes que embriagaram meus sentidos desde a primeira vez que passei por ali.  


          Aspirei com prazer o ar fresco da manhã fria que encheu meus pulmões e despertou ainda mais meus sentidos...







Sentei-me num banco de madeira embaixo de uma árvore frondosa e por alguns momentos fiquei apenas ouvindo o canto dos pássaros e o grasnar agourento dos corvos, que fizeram despertar doces lembranças adormecidas...










          Sem pressa de levantar deixei o tempo passar enquanto observava algumas aves ciscando pequenos insetos escondidos na grama ainda molhada pelo orvalho da noite.


          Uma mamãe muito cuidadosa chamou seus pequenos filhotes que imediatamente pararam de ciscar a grama e saíram correndo para a seguirem obedientes. Fiquei impressionada com a rapidez com que os patinhos atenderam ao chamado da mãe.


          Continuei minha caminhada pelo parque, desbravando mais uma vez as belezas de seus canteiros floridos e o encanto das matizes das cores reveladas naquele final de primavera.





          Sorri feliz ao me dar conta que meu coração estava em paz e tão sereno quanto aquela manhã que dava início a uma nova estação que prometia céu azul e sem nuvens.