A Roda da Vida e as Fiandeiras do Destino

O telefone tocou cedo, era a Maura avisando que o Sr. Cesar faleceu. O período em que esteve doente foi de muito sofrimento para ele e também para a família que se sentia impotente, sem ter muito que fazer.
Fui para a janela do meu quarto e fiquei observando o jardim. Um sabiá procurava comida entre as flores coloridas dos canteiros e duas rolinhas brigavam. Acho que era disputa pelo território. O gato Bubu miava sem parar e os passarinhos caminhavam indiferentes enquanto comiam sobras de ração que minha mãe havia jogado entre as plantas.
A vida continua seu curso indiferente ao que acontece à sua volta. É a roda da vida girando sem parar...
Ontem o dia foi tão agradável. Suzi e eu saímos para almoçar com a Maura e de lá fomos passear na feira de natal que está acontecendo no Centro de Convenções. As bancas repletas de produtos natalinos enchiam os olhos, era cada papai Noel mais simpático do que o outro. Havia também anjos, guirlandas, toalhas, panos de pratos, e um montão de outros produtos. A Maura não se conteve e comprou um simpático ursinho branco de presente para a Júlia e um papai Noel para a Suzi. Eu também acabei comprando uma boneca de pano para a filhinha da drª Camila, que nascerá em março.
Demos uma parada no Shopping ID para ver os preços dos sofás e ficamos impressionadas com a carestia. Decidimos que a troca do sofá da sala de TV terá que esperar mais um pouco.
A tarde já estava quase acabando quando deixamos a Maura e seguimos direto para casa. Mal entrei e tive a notícia de que minha querida amiga drª Flora está muito mal na UTI. Foi um choque. Era a última notícia que gostaria de ter ouvido.
Liguei para o Rio e a Elenice confirmou, ela está muito debilitada e só um milagre poderá salvá-la. Elenice, sua escudeira fiel, está inconsolável. Eu também fiquei arrasada.
A vida é uma caixinha de surpresa. Num momento estamos comemorando, rindo e brincando e no momento seguinte podemos estar chorando uma grande perda. É complicado, é assustador, mas é assim que funciona, não há como escapar. A roda da vida não pode parar. Ora está lá em cima, ora cá embaixo. Penso no mito das fiandeiras do destino, as Moiras, na mitologia grega ou Parcas, da mitologia romana. Cloto já fiou um longo destino para minha amiga, pois já se passaram mais de 70 anos, Láquesis lhe deu altos e baixos ao desenrolar esse fio e parece que Átropos anda a espreita...
Meu pensamento é para Deus. Deus ó Deus como devo rezar? Tenha piedade da minha amiga e minimize seu sofrimento. Não permita que ela fique presa numa cama fria de hospital. Se ainda não for sua hora de partir restaure logo suas forças e devolva-lhe a energia. Se, no entanto, for chegado seu tempo liberte-a, dê-lhe asas para voar...
Sei que muita gente pode se horrorizar com um pedido assim, mas viver para mim significa mais do que apenas respirar com a ajuda de aparelhos, principalmente em se tratando de uma pessoa que sempre foi ativa, que vivia tudo no superlativo. A drª Flora não merece viver assim, ela sempre foi uma pessoa muito boa e generosa. Nunca fez corpo mole para trabalhar. Mesmo idosa ainda tinha energia para fazer longos plantões nos hospitais onde trabalhava.
E foi com o coração apertado que participei mais tarde da homenagem ao Sr. Razi, pioneiro da fé Bahai no Brasil, que faleceu há alguns dias. Pouca gente viveu tão intensamente sua fé como ele que dedicou uma vida inteira a divulgação da fé Bahai. Começou muito jovem ao sair do Irã para os Emirados Árabes, quando Dubai devia ser apenas um mar de areia a perder de vista. Que jovem corajoso. Ir falar de religião num país muçulmano. Acabou vindo depois para o Brasil onde se estabeleceu e formou uma bonita família. Guitty, sua esposa, é a pessoa mais doce e acolhedora que conheço. Gosto muito da Guitty.
A morte e sua inevitabilidade se faz presente o tempo todo como a nos lembrar que estamos aqui apenas de passagem. Mesmo sendo a única certeza que temos da vida nunca estamos preparados para ela. Mas aconteça o que tiver que acontecer a roda da vida não para e se continuamos vivos é para viver.
2 Responses
  1. Lara Amaral Says:

    Bonito texto, tia, reflexivo, contundente... pensei nas pessoas queridas que já foram, quantas saudades sinto. Mas elas deixaram marcas muito boas. Talvez seja válido isto: ir, mas fazer com que os que fiquem e sintam a sua ausência possam ter de vc lembranças boas.

    Beijos.


  2. Que texto mais triste =/

    Fiquei chocada qdo a tia Suzi falou da morte do Sr. Razi, juro que não esperava... Tão forte!


    Qto a Dra. Flora acho seu epdido completamente aceitável e humano, detesto ter sido quem levou a notícia a família, sei do seu grande carinho por ela... A internet é um meio bem rápido de comunicação e fico feliz do César ter usado a mim p passar a noticia e n diretamente a ti, sei o qto lhe faria mal...

    A vida segue seu curso de fato, independente do q acontece ao nosso redor.. Infelizmente ou felizmente é assim!


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Obrigada pelo comentário. bjs Lou