Chiquinha, uma galinha de estimação

Minha mãe, como diz tia Leó, é uma idosa de 82 anos e não uma velhiiiinha.

Quem a conhece realmente não acredita que ela já passou por 82 primaveras e todas as demais estações. Ela é baixinha (sem dúvida encolheu uns bons centímetros com a idade), magra, muito ágil, lúcida e um pouco calada. Observa mais do que fala e prefere lidar com suas plantas e animais do que com qualquer outra coisa. Sempre teve animais de estimação e nunca fez distinção se o objeto de seu amor é um gato, cachorro, pássaro ou qualquer outro espécime do reino animal.
Um dia, já faz muito tempo, fui conhecer a chácara de uma amiga. Era um lugar muito agradável, cheio de árvores frutíferas e animais. Eram tantos pés de jabuticaba carregados de frutos negros brilhantes que enchiam o ar com seu aroma adocicado. Além dos cachorros barulhentos havia também muitos patos, gansos e galinhas. Uma galinha estava cheia de pintinhos e observei que um deles tinha as peninhas arrepiadas. Comentei com minha amiga que minha mãe já criara uma galinha arrepiada que era o seu xodó. Na hora ela pegou o pintinho e entregou-me para trazer de presente para minha mãe.
Fiquei tão surpresa com o gesto espontâneo que sequer consegui reagir e acabei trazendo o pintinho para casa, dentro de uma caixinha.
Tão logo cheguei em casa chamei minha mãe e entreguei-lhe o presente. Ela, para variar, adorou o pintinho. Seus olhinhos negros e cansados brilharam de alegria. O pintinho recebeu o nome de Chiquinha, mesmo sem saber se era menino ou menina, e foi adotado como animal de estimação na mesma hora.
Ela arrumou uma caixa cheia de panos limpinhos (que eram trocados diariamente) e colocou o pintinho lá dentro para dormir. Detalhe, a caixa com o pintinho ficava dentro do quarto dela.
Todos os dias pela manhã ela levantava, pegava a Chiquinha e a levava para o quintal. Lá ela levantava todas as pedras que delimitavam os canteiros para que ela pudesse comer os bichinhos que ficavam escondidos embaixo da pedra. Se fosse um gato eu diria que a Chiquinha ronronava de satisfação. Como era um galináceo posso afirmar que cacarejava de alegria enquanto se banqueteava com tantas lagartas e caramujos.
Podia estar onde estivesse que se minha mãe chamasse: Chiquiiiiinha, ela respondia cacarejando. As duas se entendiam perfeitamente.
Um belo dia estava eu no tribunal trabalhando quando encontrei uma amiga muito aflita sem saber o que fazer com o cachorro da família que não poderia ser levado para o apartamento para onde ela estava se mudando. Como moro em casa e tinha um canil espaçoso na hora me prontifiquei a receber a cadela até que ela arranjasse alguém que pudesse adotá-la. Nem me passou pela cabeça que naquele momento eu estava resolvendo o problema da minha amiga e arranjando um enorme para mim.
Pois bem, a tal cadela era um problema proporcional ao tamanho dela, enorme. De cara ela não ficou satisfeita em se ver trancada no canil e passava o tempo todo tentando arranjar um jeito de escapar.
Não demorou muitos dias e estava a pobre Chiquinha comendo despreocupada seus bichinhos no quintal quando a infeliz da cadela gigante arrombou a porta do canil e atacou a pobre galinha. Foi uma gritaria só: da galinha que estava sendo atacada, do cachorro latindo eufórico com a façanha de ter conseguido não só escapar como também caçar uma galinha desprevenida e os gritos desesperados de minha mãe para acudir a Chiquinha.
Confesso que não sei como consegui tirar a galinha da boca da cadela, mas quando me dei conta já estava com ela nas mãos e pude constatar o estrago que havia sido feito em seu corpo. Ela estava toda rasgada, mas ainda viva.
Minha mãe chorava convulsivamente por causa da Chiquinha. Conseguimos prender a fera e eu pedi que minha amiga Leó, que estava com o carro estacionado na rua, me levasse urgente até a clínica veterinária que ficava mais perto.
Lá chegando fui correndo pedir que socorressem a Chiquinha. A veterinária olhou para mim com cara de incrédula e argumentou que ficaria mais barato comprar um galinheiro inteiro do que costurar aquela galinha. Eu argumentei que se ela não salvasse a galinha eu teria que fazer dois enterros: o da galinha e o da dona da galinha que não parava de chorar em casa.
Acho que a veterinária ficou tão indignada por ter de costurar uma galinha que me cobrou os tubos. Uma inseminação artificial de uma égua premiada não teria saído mais caro.
A coitada da Chiquinha recebeu mais de 80 pontos por todo o corpo e teve que ficar em observação. A noite minha mãe fez questão de visitá-la para se certificar de que ela estava mesmo viva.
Chiquinha ficou internada um dia inteiro e teve "alta hospitalar". Enquanto ela esteve internada dei um jeito de encontrar alguém para adotar a cadela matadora de galinhas. Chiquinha voltou para casa ainda mancando, mas em alguns dias já estava bem. Precisou retornar ao veterinário apenas para retirar aquele monte de pontos. A veterinária continuava indignada por atender uma simples galinha, mas como ela tinha feito um arraso em minha conta bancária eu não me importei em vê-la retirando cada um dos 80 pontos da Chiquinha.
Alguns meses depois Chiquinha, já uma galinha adulta, teve uma ninhada de lindos pintinhos. Dentre eles havia um com as peninhas arrepiadas. Logo pensei: será que vai começar tudo de novo?
Lou Montes
3 Responses
  1. Caralhoooooooooooo lindo, lindo, lindo, lindo!!

    Eu chorei com o seurelato, em pensar na minha desesperada com a galinha toda aberta e machucada!! Eu vi a cena aki! Pqp, vc é foda mesmo!


  2. Lara Amaral Says:

    Essa história eu conheço, mas como ficou maravilhosa escrita aqui, tia. Adorei lê-la.

    Estranho que suas atualizações não apareceram no meu blog. Agora que vi que há vários textos novos.


  3. Anônimo Says:

    Hahaha!
    ADOREI a hostória... é cada uma, quase inacreditável!
    Parece até uma crônicas às galinhas...ou à dona delas! Muito, muito incrível.
    beijos,
    Cla!


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Obrigada pelo comentário. bjs Lou